“Adotei o Boquinha”: Cão idoso de lábios diferentes e olhar triste, volta a brilhar ao deixar abrigo e encontrar uma família
Por Larissa Soares em Proteção AnimalNo abrigo, Boquinha não chamava atenção. Ele não pulava, não latia alto e tampouco disputava carinho com os outros cães. Ele apenas esperava.
Já idoso, sem a maioria dos dentes e ainda lidando com problemas de pele causados por fungos, o cachorro parecia invisível. E foi justamente isso silêncio que tocou Diego Sedrez.
Em um vídeo publicado no Instagram, ele contou que viu a postagem do abrigo dizendo que Boquinha ainda aguardava por uma família. Um cachorrinho velho, frágil, quase esquecido.
“A gente foi buscar”, contou Diego. E assim começou uma história que emocionou milhares de pessoas nas redes sociais.
O encontro que mudou tudo
Ao chegar ao abrigo, Diego e sua família se depararam com uma realidade triste. O local estava lotado de animais, todos esperando por uma chance.
Quando conheceram Boquinha pessoalmente, descobriram que ele ainda não tinha terminado o tratamento contra fungos na pele e que já não possuía a maioria dos dentes da frente.
“Por isso o nome Boquinha, porque a boca ficava com esse biquinho”, explicou.
Mesmo com medo, o cãozinho ainda encontrava forças para abanar o rabo, como se dissesse que ainda havia espaço para confiar.
Nada disso foi um impedimento.
“A pele, os dentes, nada disso importava. A gente só queria que ele tivesse uma família no finalzinho da sua vida”, disse Diego. A decisão foi tomada sem hesitação.
Adaptação e cuidado
Em casa, quem aguardava ansiosa era Pitchula, a outra cachorrinha da família. Para facilitar a adaptação, os dois ficaram separados por algumas horas, apenas se observando à distância.
Boquinha parecia deslocado, confuso, com um olhar que Diego descreveu como de “tristeza profunda”.
As perguntas inevitáveis surgiram: será que ele já teve uma família? Será que sentia saudade de casa? Teria sido abandonado? Perguntas que provavelmente nunca terão resposta.
No primeiro dia, a família preparou uma comida especial, cheia de legumes, para ajudar a renovar as energias e o ânimo do novo morador.
No dia seguinte, algo já parecia diferente. Boquinha pegou sol, se movimentou mais e mostrou sinais de que estava começando a se sentir seguro.
O medo deu lugar à alegria
Pitchula foi paciente desde o início, respeitando o tempo do novo amigo. Em alguns momentos, Boquinha ainda demonstrava receio, chegando a ameaçar uma mordida quando ela se aproximava demais.
Mas a surpresa veio rápido. Em menos de uma semana, os dois já brincavam juntos como se se conhecessem há anos.
Mesmo com algumas derrapadas e limitações da idade, Boquinha não deixava a peteca cair. Ele mostrava vontade de brincar, de participar e, principalmente, de sentir alegria.
Amor tardio, mas intenso
Não demorou para o cãozinho demonstrar apego. Toda vez que a família sai de casa, mesmo que por apenas 10 minutos, o retorno é sempre o mesmo: uma recepção cheia de alegria.
O tratamento contra os fungos segue sendo um desafio, mas a família está confiante.
E Boquinha também ganhou um novo nome: Plínio.
O vídeo, segundo Diego, foi publicado com o propósito de incentivar outras pessoas a olharem com mais carinho para os animais idosos dos abrigos.
Conversando com a responsável pelo local, Diego descobriu que Boquinha foi uma exceção. A maioria dos cães idosos quase nunca é adotada. Muitos acabam passando seus últimos anos, e até morrendo, dentro dos abrigos.
Por que adotar um cão idoso pode transformar vidas
Segundo a PetMD, cães são considerados idosos, em geral, a partir dos 7 anos, embora isso varie conforme o porte da raça. Cães pequenos entram nessa fase mais tarde, por volta dos 11 anos, enquanto raças gigantes podem ser consideradas idosas a partir dos 5 anos.
Mesmo assim, os números mostram um cenário preocupante. Aproximadamente 5,8 milhões de cães entram em abrigos nos Estados Unidos todos os anos, e uma grande parcela deles é composta por animais idosos. No entanto, apenas cerca de 25% desses cães são adotados, contra 60% dos filhotes e cães jovens.
O receio de custos veterinários, problemas de saúde e o pouco tempo de convivência afastam muitos adotantes. Ainda assim, a PetMD destaca que cães idosos têm muito a oferecer.
- Eles costumam ser mais calmos, já passaram da fase destrutiva dos filhotes e, muitas vezes, já sabem fazer as necessidades no lugar certo.
- Além disso, cães idosos ainda são capazes de aprender novos truques, o que ajuda a manter a mente ativa e proporciona um senso de propósito.
- Seu temperamento costuma ser mais previsível, o que facilita a adaptação à rotina da casa.
Além disso, ao adotar um cão idoso, o tutor não está apenas oferecendo um lar, mas sim, dignidade, conforto e amor nos últimos capítulos da vida daquele animal.
Como destacou um comentário no vídeo de Diego:
“Quando adotamos um animal idoso, não queremos criar uma grande história — apenas encerrar uma, com respeito, dignidade e presença”.
Larissa é jornalista e escreve para o Amo Meu Pet desde 2023. Mora no Rio Grande do Sul, tem hobbies intermináveis e acha que todos os animais são fofos e abraçáveis. Ela se formou em Jornalismo pela Universidade de Passo Fundo e é “mãe” de duas gatas.
