“Sem o Billie, eu não vou!”: Morador de rua só aceita ser internado com seu cão e isso muda sua vida para sempre
Por Beatriz Menezes em ComportamentoFrancisco Junqueira viveu quatro anos em situação de rua percorrendo cidades de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro enquanto lutava contra a dependência química.
Durante esse período, ele contou com a companhia inseparável de Billie, um cachorro vira-lata de cor caramelo que se tornou sua única âncora emocional.
O vínculo entre os dois foi o fator determinante para que o homem aceitasse o tratamento em uma clínica de recuperação, sob a condição de que o animal não fosse abandonado.
"Eu não largava meu Billie, meu caramelo, por nada nesse mundo. Daria minha vida pela dele", afirma Francisco sobre a relação que manteve durante o tempo de vulnerabilidade.
A rotina nas ruas era marcada pela negação da própria saúde e pela mistura de substâncias químicas que faziam Francisco perder a noção do perigo.
Ele relata que ignorava o próprio corpo e a família, acreditando que detinha o controle sobre a situação quando, na verdade, vivenciava os sintomas de uma doença progressiva.
"Eu achava que era controle pessoal, mas era negação, o primeiro sintoma da doença", explica o agora terapeuta sobre o período em que se colocava em risco diariamente.
Mesmo diante desse cenário de autodestruição, a responsabilidade com o bem-estar de Billie permanecia intacta. O animal sempre recebia ração, água fresca e atenção, sendo tratado como prioridade em meio ao caos.
O momento decisivo ocorreu no centro da Cracolândia, em São Paulo, quando uma equipe de resgate abordou Francisco para oferecer internação. A resistência inicial foi imediata, pois o homem temia o destino do cachorro caso ele seguisse para uma unidade de saúde.
Em dezembro de 2025 Francisco contou em um vídeo que jamais aceitaria a internação sem que seu cão fosse junto.
"Nem o resgate separou a gente. Eu disse: eu vou, mas meu dog vai junto", recorda sobre a tensão do momento.
A negociação resultou em uma exceção aberta pelo proprietário da clínica, permitindo que o animal entrasse na ambulância e participasse de todo o processo de reabilitação.
Dentro da ambulância, Francisco seguiu agarrado ao animal enquanto era transportado para o início de uma nova etapa. Ele descreve que a presença de Billie foi o suporte necessário para enfrentar a abstinência e as dificuldades da rotina terapêutica.
"Ele foi amigo, lealdade, amor, abrigo e companhia quando eu não tinha mais nada", destaca o tutor. O cachorro não foi apenas um espectador, mas parte integrante da recuperação, recebendo também cuidados e ganhando peso junto com Francisco durante os meses de internação.
A publicação tem 50 mil visualizações, 7 mil curtidas e 2090 comentários.
“Muito linda sua história, amo cachorro também , espero q vc não tenha recaídas nunca mais e q estejam os dois bem.”
“Moço do céu, você me fez chorar muito.DEUS ESTEJA CONTIGO E O SEU AMIGO SEMPRE”
“Linda estória de superação. Que você consiga recuperar muitas vidas. Vou orar pelo seu trabalho.”
Comentaram alguns internautas.
Assista abaixo:
Atualmente, a realidade de ambos é diferente do asfalto das metrópoles onde dormiam sob plásticos e enfrentavam a fome.
Eles residem em um ambiente limpo e confortável, onde o cachorro desfruta da segurança de um lar definitivo.
Francisco utiliza sua experiência para alertar sobre os riscos da dependência, ressaltando que o fim comum para quem não busca tratamento costuma ser a prisão ou a morte.
"A insanidade da dependência química é repetir comportamentos autodestrutivos esperando um final diferente", analisa Francisco.
O trabalho de Francisco como terapeuta agora foca em mostrar que existe vida após as drogas por meio de ajuda profissional e disciplina diária.
Ele utiliza redes sociais para documentar sua trajetória e a de Billie, reforçando a mensagem de que ninguém consegue se recuperar totalmente sozinho.
"O que mudou minha história não foi força de vontade; foi tratamento adequado, rotina terapêutica e ajuda profissional", conclui. A história serve como um registro de que a lealdade de um animal pode ser o estímulo que falta para alguém decidir lutar pela própria vida.
Confira:
Fotógrafo cria projeto para ajudar tutores e cães em situação de rua
O Moradores de Rua e Seus Cães (MRSC) é um projeto social e ONG brasileira que atua na interseção entre a causa animal e o apoio à população em situação de vulnerabilidade.
Fundada em 2015 pelo fotógrafo Edu Leporo, a iniciativa começou como um ensaio fotográfico para documentar o vínculo afetivo entre pessoas sem-teto e seus animais de estimação. Ao perceber as carências extremas dessas pessoas e cães, o projeto evoluiu para uma organização que oferece assistência integral.
Objetivos e ações
O lema do projeto é "Nem só de ração vive o cão", refletindo a missão de oferecer dignidade tanto para o tutor quanto para o animal. Suas principais atividades incluem:
- Cuidados veterinários: oferecem banho (muitas vezes em um "Pet Móvel"), vacinação, vermifugação, controle de parasitas e castração gratuita.
- Suporte aos tutores: distribuição de kits de higiene, café da manhã completo, roupas, cobertores e calçados.
- Assistência alimentar: fornecimento de ração para os animais e cestas básicas para os tutores.
- Ações especiais: realização de eventos temáticos, como ações de Natal, que incluem doação de brinquedos e refeições especiais.
Alcance e impacto
Desde a sua criação, a ONG expandiu sua atuação para além de São Paulo, chegando a mais de 13 cidades em pelo menos 7 estados brasileiros, como Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do Sul.
- Beneficiários: estima-se que o projeto já tenha beneficiado mais de 100 mil pessoas e animais em situação de rua.
- Castrações: já foram realizadas mais de 4 mil cirurgias de esterilização em suas ações gratuitas.
O projeto sobrevive através de doações de pessoas físicas, parcerias com grandes marcas do setor pet e a venda de livros e produtos solidários.
