Aranha 'zumbi’ da Amazônia: animal tomado por fungo parasita viraliza e lembra The Last of Us
Por Beatriz Menezes em Mundo AnimalNo início do mês de janeiro o pesquisador Elisandro Ricardo Drechsler-Santos, professor na Universidade Federal de Santa Catarina, caminhava pela Reserva Ducke, nos arredores de Manaus, quando um detalhe no solo interrompeu a expedição.
Entre as folhas úmidas da Amazônia, ele segura uma tarântula da espécie Theraphosa blondii, conhecida como a maior aranha do mundo. Mas não se assuste, porque no vídeo o animal não se move.
Do corpo da aranha brotam hastes alaranjadas e vibrantes que parecem dedos saindo do exoesqueleto.
O registro, publicado no Instagram em 16 de janeiro, transformou uma atividade acadêmica em um fenômeno digital que ultrapassou as bolhas científicas.
A cena remete imediatamente ao universo da cultura pop, especificamente ao enredo da série e do jogo The Last of Us. Na ficção, um fungo do gênero Cordyceps sofre uma mutação e passa a infectar seres humanos, transformando a sociedade em um cenário pós-apocalíptico de zumbis.
Na vida real, o que o professor e a equipe do Tropical Mycology Field Course encontraram foi o Cordyceps caloceroides. Este fungo atua como um parasita obrigatório que assume o controle do sistema nervoso de artrópodes para garantir a própria reprodução.
A estrutura colorida que chamou a atenção nas imagens é o corpo de frutificação do fungo. Segundo Ricardo, que estuda o tema há duas décadas, as pontas dessas hastes produzem esporos que serão lançados no ar.
O objetivo biológico é alcançar outras aranhas gigantes da região para reiniciar o ciclo de infecção.
A descoberta ocorreu durante um curso organizado por outro pesquisador, João Fungo, em parceria com o Museu de História Natural da Dinamarca.
A repercussão imediata nos comentários da publicação revelou um misto de fascínio e receio entre os internautas. Muitos questionaram se a descoberta representava um risco real de salto entre espécies, o que poderia levar a uma pandemia semelhante à da ficção.
Assista abaixo:
Diante do volume de mensagens e da curiosidade do público, o professor retornou às redes sociais no dia 21 de janeiro para esclarecer os fatos e acalmar os ânimos.
O cientista explicou que o medo de um apocalipse zumbi não possui base científica. Ele esclareceu que esses fungos atacam hospedeiros de forma muito específica devido a milhares de anos de coevolução.
“Muitas vezes essas relações existem há milhares de anos e são resultados da evolução, né? Nós humanos também coevoluímos com microrganismos e temos um sistema imunológico altamente eficiente. Então podemos ficar tranquilos, pelo menos com esse grupo de fungos”, explicou.
O especialista destacou que a série de televisão prestou um serviço importante ao despertar o interesse mundial pela micologia, uma área que frequentemente sofre com a falta de investimento e atenção.
Confira:
O Brasil é protagonista silencioso nesse cenário por abrigar cerca de 10% da diversidade global de fungos. No entanto, o pesquisador ressalta que esse grupo de organismos ainda é negligenciado nas políticas de conservação em comparação com a fauna e a flora.
A documentação dessas espécies é vista como uma questão de soberania nacional e avanço socioeconômico, já que fungos são a base para medicamentos fundamentais como a penicilina.
A Amazônia ainda é pouco estudada!
Uma vasta parte da biodiversidade amazônica é desconhecida. Muitas áreas de "terra firme" e espécies de plantas e animais ainda não foram catalogadas.
“Nós ainda temos tanto para saber, tantas perguntas para fazer, vivemos nessa busca. Sempre que vamos a um lugar estudar um bicho já conhecido, acaba que descobrimos coisas novas.” diz Lúcia Rapp Py-Daniel, coordenadora de biodiversidade do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).
De acordo com a National Geographic Brasil em 2017, o WWF Brasil e o Instituto Mamirauá calcularam que uma nova espécie de animal ou vegetal havia sido descoberta na Amazônia a cada dois dias entre 2013 e 2015 – ao todo, 381, incluídos 93 peixes e 18 mamíferos.
Em 2019, por sua vez, pesquisadores do Mamirauá encontraram um novo macaco do gênero Leontocebus, um sagui, que ainda nem sequer foi batizado.
