Logomarca Amo Meu Pet

“Larguei eles num lugar aí!”: Confissão de comerciante sobre sumiço de cães comunitários revolta protetores

Por
em Proteção Animal

O desaparecimento de dois cães comunitários no bairro Tupi, em Piracicaba, no interior de São Paulo, causou indignação, revolta e mobilizou protetores, autoridades e moradores da região.

Cuidados diariamente por pessoas do bairro, os cães simplesmente sumiram de um dia para o outro.

Segundo relato da protetora Alessandra Bellucci, que atua há 35 anos na causa animal na cidade, uma testemunha afirmou ter visto os dois cães sendo colocados na carroceria de uma Saveiro por um comerciante da região.

O detalhe mais grave: os animais não eram abandonados, doentes ou agressivos. Pelo contrário.

Eles eram cães comunitários reconhecidos, com casinhas, alimentação diária, vínculos estabelecidos com a vizinhança e todos os cuidados básicos em dia.

“Eles tinham tudo: cuidado, vínculo e proteção”

Os dois cães eram castrados, vacinados, chipados e acompanhados por protetores do bairro.

Viviam naquele território há bastante tempo e eram reconhecidos pela comunidade como parte do local.

“Cão comunitário não é um animal largado. Ele tem vínculo, tem manutenção, tem pessoas responsáveis. E isso é protegido por lei”, explicou Alessandra.

Quando o comerciante foi questionado sobre o paradeiro dos animais, um áudio enviado a protetores aumentou ainda mais a revolta.

Nele, o homem afirma que levou os cães para “outro lugar”, mas se recusa a informar onde os deixou, dizendo que não tinha obrigação de dar o endereço.

Imagens mostram cães abandonados em rodovia

Na mesma noite do desaparecimento, um novo elemento agravou a situação. Um ciclista que passava por uma rodovia em Santa Bárbara d’Oeste registrou um vídeo mostrando dois cães com as mesmas características caminhando desorientados, à beira da pista.

Para os protetores, não havia dúvidas: eram os mesmos animais retirados de Piracicaba.

“Eles foram tirados de um local onde eram cuidados e jogados no meio de uma rodovia para morrer”, disse Alessandra. “Isso é gravíssimo.”

Polícia e Bem-Estar Animal entram no caso

Diante da denúncia, a Polícia e o setor de Bem-Estar Animal de Piracicaba foram até os comércios do suspeito. No entanto, nem ele nem a esposa foram encontrados no local.

Um boletim de ocorrência foi registrado, e o caso passou a ser acompanhado pela equipe Cadeia para Maus-Tratos, da qual Alessandra faz parte, em parceria com a vereadora Roberta Dias, de Americana.

A urgência era localizar os cães antes que algo pior acontecesse.

Veja o vídeo:

Em meio à revolta nacional após o caso Orelha

O episódio ocorreu poucos dias após o país acompanhar, com indignação, a morte violenta do cão comunitário Orelha, em Florianópolis (SC).

O animal foi brutalmente agredido, e o caso ganhou repercussão nacional e internacional.

Quatro adolescentes são investigados por envolvimento direto na morte do cão, enquanto três adultos foram indiciados por coagir uma testemunha.

O caso gerou protestos, mobilizações e manifestações de artistas e figuras públicas, que pediram justiça e punição exemplar.

Para protetores, o abandono dos cães em Piracicaba se conecta diretamente a esse cenário de alerta.

“A mensagem precisa ser clara: violência contra animais não pode ser normalizada, nem ficar impune”, reforçou Alessandra.

Mobilização dá resultado: cães são resgatados e devolvidos

Felizmente, a história teve um desfecho diferente do caso Orelha. Após intensa mobilização nas redes sociais e compartilhamento das imagens, alguém foi até Santa Bárbara d’Oeste, resgatou os cães e os devolveu ao local onde viviam.

“É longe demais para eles terem ido sozinhos. Mas, graças à comoção, eles estão salvos e de volta”, comemorou a protetora em um vídeo de atualização.

Ela também aproveitou para rebater comentários contrários à existência de cães comunitários.

“Eu sou contra a violência. Se você é contra cão comunitário, então tem que ser contra pessoas estarem na rua também. Todo mundo tem direito de viver onde tem vínculo, com proteção e respeito”, afirmou.

Cão comunitário é protegido por lei

No Brasil, o cão comunitário é reconhecido legalmente como aquele que estabelece laços de dependência com a comunidade, mesmo sem um tutor único.

Leis municipais e estaduais — como a Lei 12.916/08, em São Paulo — proíbem o recolhimento ou remoção desses animais quando estão saudáveis e assistidos.

Retirar um cão comunitário de seu território, abandoná-lo ou colocá-lo em risco configura crime de maus-tratos, previsto na Lei nº 9.605/98, com pena de reclusão e multa.

Como denunciar maus-tratos contra animais

Casos de abandono, agressão ou remoção ilegal de animais devem ser denunciados. As denúncias podem ser feitas:

  • Na Polícia Civil, por meio de boletim de ocorrência
  • No Ministério Público
  • Em delegacias eletrônicas (em estados que oferecem o serviço)
  • Aos órgãos de Bem-Estar Animal do município
  • Registrar provas como vídeos, fotos, testemunhos e localização ajuda a fortalecer a denúncia.

Como mostrou o caso dos cães de Piracicaba, compartilhar também é um ato de proteção e, muitas vezes, a diferença entre a vida e a morte.

Larissa é jornalista e escreve para o Amo Meu Pet desde 2023. Mora no Rio Grande do Sul, tem hobbies intermináveis e acha que todos os animais são fofos e abraçáveis. Ela se formou em Jornalismo pela Universidade de Passo Fundo e é “mãe” de duas gatas.