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Cães que só sabiam viver curvados olhando para baixo por medo de pessoas descobrem que a vida pode ser boa

Resgatados de um canil clandestino, eles ainda não conseguem acreditar que estão seguros

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em Cães

Alguns resgates salvam vidas. Outros tentam reconstruir aquilo que foi destruído ao longo de anos.

Foi o caso de três dos 22 cães retirados de um canil clandestino em Osasco, São Paulo. Nas imagens compartilhadas pela protetora responsável pelo resgate, @marinainserrainstitutoadotedog, eles aparecem com a cabeça baixa, o corpo encolhido e os olhos voltados para o chão.

Enquanto tenta acariciá-los, ela repete uma frase simples, mas carregada de significado:

"Não precisa ficar curvado. Não precisa se curvar mais."

Para muitos espectadores, aquela postura chamou atenção imediatamente. Não parecia apenas timidez. Era como se aqueles cães tivessem aprendido que ocupar espaço no mundo podia ser perigoso.

Uma vida inteira de submissão

Segundo a protetora, os animais vieram de um criadouro clandestino e ainda estão em processo de recuperação. Antes de serem disponibilizados para adoção, passarão por avaliação veterinária, vacinação e castração.

Mas algumas feridas não aparecem nos exames.

Anos vivendo em ambientes de negligência podem afetar profundamente o comportamento dos cães. Quando são tratados apenas como máquinas de reprodução ou privados de interações positivas, muitos passam a desenvolver respostas constantes de medo e submissão.

É justamente isso que parece estar registrado nas imagens.

O trauma que não aparece nas imagens

Pesquisadores da área de comportamento animal observam que experiências prolongadas de estresse podem alterar significativamente a forma como cães se relacionam com pessoas e com o ambiente.

Um estudo publicado na revista científica Animals pelos pesquisadores Liam Clay, Mandy Paterson, Pauleen Bennett e Clive Phillips, da Universidade de Queensland, na Austrália, identificou que cães submetidos a ambientes adversos frequentemente apresentam sinais persistentes de ansiedade, hipervigilância e medo diante de situações novas.

Já pesquisas conduzidas pela cientista Temple Grandin e pelos pesquisadores Crista L. Coppola e R. Mark Enns, da Universidade Estadual do Colorado, mostraram que animais expostos a experiências traumáticas podem levar tempo para recuperar a confiança, mas respondem positivamente a interações humanas consistentes e respeitosas.

Em outras palavras, o comportamento daqueles cães não representa fraqueza. É uma estratégia de sobrevivência aprendida ao longo do tempo.

Aprendendo a ser cachorro novamente

Para quem nunca conviveu com um animal resgatado de maus-tratos, pode ser difícil imaginar o quanto ações simples precisam ser reaprendidas.

Receber carinho, caminhar sem medo, brincar, explorar um ambiente ou simplesmente olhar uma pessoa nos olhos podem se tornar desafios para cães que passaram anos vivendo sob estresse.

Por isso, muitos protetores costumam dizer que alguns resgates acontecem duas vezes: primeiro quando o animal é retirado do sofrimento e depois quando ele finalmente entende que está seguro.

É justamente essa segunda etapa que parece estar acontecendo agora.

Repercutiu

A história emocionou milhares de pessoas, especialmente tutores que já acolheram animais vítimas de exploração e maus-tratos.

"Tenho uma que era matriz de um canil. Quando ficou idosa, foi doada para minha cunhada. Depois veio para mim. Eu não salvei ela. Ela que me salvou. Minha companheira inseparável, Lara", escreveu uma seguidora.

Outra pessoa contou:

"Tenho duas resgatadas que sofriam maus-tratos e eram usadas como matriz. Dormiam sentadas de tanto medo. Mas com muita paciência elas entenderam o que é amor e ter uma família de verdade."

Entre os comentários, também apareceram mensagens de indignação diante da situação vivida pelos animais.

"É devastador ver isso. Parece que a humanidade está involuindo. Surreal tanta crueldade."

Uma nova chance

Ainda não se sabe quanto tempo esses cães precisarão para deixar de andar curvados ou para acreditar que ninguém irá machucá-los.

Mas a protetora tem uma convicção.

Pode demorar para alguns. Pode exigir meses de paciência. Mas, com cuidado, respeito e amor, eles vão entender que possuem vontades próprias, que podem ocupar espaço e que não precisam mais viver com medo.

E, para cães que passaram a vida inteira acreditando no contrário, essa talvez seja a maior liberdade de todas.

Jornalista formada pela Universidade de Passo Fundo, apaixonada pela comunicação e pela arte de contar histórias. Escolheu o jornalismo justamente por acreditar no poder da informação e na importância de dar voz às pessoas e aos acontecimentos que marcam a comunidade.

Curiosa por natureza e movida pelo compromisso com a verdade, busca transformar fatos em narrativas claras, humanas e relevantes. 

Acredita que comunicar vai muito além de informar: é conectar realidades, aproximar pessoas e registrar momentos que fazem parte da história de uma comunidade.