'Ninguém preparou a gente': Brasileira ouve choro sob carro e mobiliza oficina para resgate na China
Por Beatriz Menezes em Gatos
Um miado abafado vindo do motor de um carro estacionado em Nanning, na China, deu início a uma história de empatia, persistência e transformação.
O caso, que comoveu a internet, revela a dedicação dos brasileiros Pollyana (natural de Goiânia) e Leonardo (de São Luís do Maranhão), que moram na China há 15 anos e utilizam as redes sociais para conscientizar e transformar a vida de animais vulneráveis por meio do perfil no Instagram @casa_dos_tios
A história da pequena Leona foi compartilhada em 30 de julho e começou quando Pollyana identificou o choro do filhote encolhido sob a estrutura do veículo, em frente ao condomínio onde mora.
Com as mãos já cobertas de graxa em tentativas frustradas de alcançar a gatinha, Pollyana usou sachês de ração úmida para tentar atrai-la, mas o animal permanecia assustado e inacessível entre as conexões metálicas da suspensão.
Em entrevista ao Amo Meu Pet ela contou que virada na operação aconteceu com o retorno do proprietário do automóvel, cuja atitude generosa surpreendeu o casal:
“Eu fiquei mais de uma hora tentando tirá-la de lá, mas ela não vinha e se escondia cada vez mais. Quando o motorista do carro apareceu, foi ideia dele levar o carro até a oficina mais próxima. Eu fiquei chocada, pra ser sincera. Esperava que ele estivesse atrasado pro serviço, ou que não tivesse interesse em ajudar, mas fui surpreendida”, relembrou.
O condutor não apenas concordou em levar o carro até o mecânico, como também orientou que o casal seguisse seu veículo para garantir que a gatinha não caísse no trajeto. Na oficina, o carro foi erguido em um elevador hidráulico, mobilizando os funcionários do local.
“Ficamos mais meia hora na oficina tentando tirar ela de lá. Movimentou a oficina inteira. No fim, meu esposo conseguiu tirar. O pessoal da oficina não quis cobrar nem um centavo. Eu também ofereci fazer propaganda da oficina, mas eles disseram que não precisava”, completou a protetora.
Do susto à adaptação: a vida de Leona no novo lar
Após o resgate bem-sucedido, Leona foi levada ao veterinário e fora o susto ela estava saudável. Inicialmente, o plano era que o casal atuasse apenas como lar temporário - como costumam fazer com diversos animais da região. No entanto, o destino tinha outros planos.
Durante o período em que aguardava por uma adoção responsável, Leona criou um vínculo inseparável com outro gatinho resgatado pela casa, o Moisés, que é cego.
“Eles se apegaram um ao outro. Só dormiam juntos, brincavam juntos e até dividiam o pratinho do sachê. Quando o Moisés foi castrar, a Leona ficou quase doente. E quando a Leona foi castrar, o Moisés até esqueceu que ele é laranja (de tão quieto!). Decidimos que eles só seriam adotados se fosse adoção conjunta. Mas já sabíamos que ia ser difícil, porque o Moisés é cego. Resultado: mais de um ano depois e eles ainda estão com a gente e são basicamente da família”, revelou Pollyana.
A gatinha, que na época do resgate tinha entre 2 e 3 meses de vida, hoje desfruta de um ambiente seguro e cheio de amor em um apartamento protegido com telas nas janelas.
“A Leona é uma delícia de gata. Ela é carinhosa, mas só quando ela quer carinho. Ela ama meu marido... eu que resgatei, mas ele é o humano dela! kkkkkk”, brinca a tutora, acrescentando que Leona hoje adora caçar insetos, brincar com os outros felinos da casa e pedir carinho logo pelas manhãs.
Confira abaixo:
A realidade do resgate de animais na China e o projeto "Casa dos Tios"
A atuação de Pollyana e Leonardo com o resgate animal começou em 2022, inicialmente com o nome "Casa do Sarge" (em homenagem ao primeiro cão adotado pelo casal), migrando posteriormente para @casa_dos_tios. O casal já resgatou pessoalmente mais de 15 gatos e diversos cães no país asiático.
Segundo Pollyana, a realidade do abandono na província de Guangxi é desafiadora e motivou o engajamento contínuo do casal:
“A realidade de abandono aqui é triste, tão triste quanto no Brasil. Mas aqui na província ainda tem um detalhe que piora a situação, que é o consumo (mesmo que ilegal) da carne de cães e gatos. Por isso, quando a gente vê um cachorro na rua sozinho, não temos a menor dúvida: é levar pra casa e procurar o dono”, explicou.
Sem apoio financeiro institucional ou de ONGs locais, toda a gestão, custeio e administração dos resgates realizados pelo casal ocorrem de forma independente.
Atualmente, a Casa dos Tios abriga cães e felinos resgatados, garantindo cuidado, reabilitação e amor a animais que frequentemente não encontram adoção fácil devido a deficiências, idade avançada ou condições de saúde.










