Duas funcionárias avistaram algo preso na lama e adaptaram um caminho para tirar de lá um animal irreconhecível
Era uma águia-pescadora atolada, tão suja de lama que era difícil reconhecer que aquilo era uma ave.
Por Camila Valmorbida em Mundo Animal
Alguém que passasse por trás da clínica naquela tarde veria uma cena estranha.
Duas funcionárias de uniforme, avançando devagar sobre um lamaçal, pisando em placas de acrílico dispostas no chão como se fossem pedras de um riacho.
Não era improviso de gente experiente em resgate. Era o que tinha à mão.
"Estendemos aquilo para distribuir o nosso peso e conseguir chegar até ela", contou Nicole ao site americano The Dodo, em relato apurado por esta reportagem. A cena aconteceu na Geórgia, nos Estados Unidos, na área alagada atrás do prédio onde ela trabalha.
As placas estavam largadas no escritório, sem uso. Foi um colega que lembrou delas quando as duas já tinham desistido de atravessar a pé. "A gente estava freneticamente tentando atender os últimos pacientes e juntar material no escritório para ir até lá", disse Nicole. "O problema é que a lama era tão funda que a gente afundava, quase até o joelho."
Como uma equipe de clínica foi parar num lamaçal?
Nada daquilo estava no plano do dia.
Nicole limpava o quarto de um paciente quando reparou em alguma coisa se mexendo lá fora, no terreno alagado atrás do prédio.
"Eu simplesmente olhei para fora, do segundo andar", contou.
"Achei que tinha visto uma ave, mas não conseguia enxergar direito. Do segundo andar, a olho nu, aquilo podia ser qualquer coisa. Um saco plástico, um galho, lixo."
Foi a colega Ashley quem resolveu a dúvida, com o zoom da câmera do celular. "Foi isso que confirmou para nós que era uma ave presa", disse Nicole. Mesmo assim, elas não largaram tudo. Terminaram de atender os últimos pacientes e só então saíram.
Quem estava na lama?
Do outro lado do lamaçal havia uma águia-pescadora, fêmea, presa no barro.
"Ela ainda tinha muita luta", contou Nicole. "Estava tentando levantar, mas estava tão atolada que não conseguia se mexer. Foi tão dócil quando cheguei nela e a peguei devagar. Ficamos eufóricos." A ave foi para dentro de uma caixa de papelão.
O improviso não parou na lama: o transporte foi assim mesmo, de caixa, até o Bells Ferry Veterinary Hospital.
Lá, o estado dela impressionou. Havia tanta lama grudada no corpo que mal dava para ver as penas.
Devolver a uma ave a forma de ave
O primeiro trabalho não foi médico, foi de limpeza.
Deram banho nela e tiraram a lama de dentro das narinas, que estavam entupidas. Depois veio a medicação. O ânimo, esse, continuou o mesmo.
Já no Chattahoochee Nature Center, o centro de reabilitação para onde ela foi transferida, os cuidadores anotaram uma frase que parece detalhe técnico e é boa notícia.
"Ela está com bom peso, na verdade um pouco gorda, então vinha pescando bem." Ou seja, aquela ave não estava fraca nem doente antes de atolar. Estava bem, e caiu numa armadilha.
A ave que talvez você já tenha visto
Vale conhecer quem foi resgatado ali.
A águia-pescadora é uma ave de rapina que vive de peixe e quase nada mais. Fica parada no ar em cima de rios e represas e mergulha de garras na frente para pegar o peixe.
E ela não é uma estranha para o Brasil. Segundo o Aves de Rapina Brasil, a espécie vem do Hemisfério Norte e aparece por aqui entre outubro e abril. É o mesmo tipo que vive na América do Norte, como essa que foi salva na Geórgia, e que desce e se espalha pelo país inteiro.
Se você já viu uma ave grande parada no ar em cima de um rio no verão e mergulhando de uma vez, pode ter sido uma delas.
A expectativa é que essa recupere a força e volte a voar.
"Estou agradecendo a Deus que ela está tão bem agora!", disse Nicole. "Estou impressionada que tantas mãos participaram do resgate. Que bênção que tanta gente se importou!".
No fim, tudo dependeu de uma coisa banal: alguém, no meio do expediente, olhar pela janela e reparar.
Camila é técnica em vestuário e formada em design de moda, então repara no caimento de tudo, inclusive no pelo dos próprios cachorros. Mora com o Bilbo, um Yorkshire, e a Sara, uma Lulu da Pomerânia, dupla que garante que nenhuma roupa preta dela sobreviva a uma tarde inteira. Gosta de tecido, de cor e de entender como as coisas são feitas por dentro, hábito que levou para o jeito de escrever sobre pets.