"Quero descer como um bombeiro": menina de 3 anos entra em fresta onde adultos não cabiam para salvar filhotinho
Em Yantai, na China, Nannan foi descida pelo pai com cinto de segurança. O filhote saiu com uma torção leve e ganhou casa.
Por Camila Valmorbida em Cães
Na cidade de Yantai, no leste da China, um filhote caiu na fresta de um viaduto. A abertura tinha menos de 30 centímetros de largura e cerca de três metros de profundidade.
Lá embaixo, o cachorro chorava. Lá em cima, a família ouvia e não conseguia fazer nada.
Nenhum adulto cabia naquele vão. A única pessoa da casa pequena o bastante para entrar tinha três anos e dois meses. A idade em que muita criança ainda pede para deixar a luz acesa na hora de dormir.
E foi ela quem se ofereceu.
"Quero descer como um bombeiro para salvar o cachorrinho", disse a menina, segundo o jornal Sing Tao, de Hong Kong.
A menina se chama Nannan. O que aconteceu nos minutos seguintes foi filmado pela mãe dela, publicado no Weibo no fim de agosto e, dias depois, já dividia a internet chinesa ao meio.
Antes de qualquer coisa, o avô de Nannan foi buscar um cinto de segurança profissional. Prendeu a menina, deu um nó de segurança e testou tudo. Testou de novo.
Só depois o pai a segurou pelas correias e começou a descer, devagar, pela fresta. Primeiro sumiram os pés. Depois o corpo inteiro, engolido pelo concreto.
Lá embaixo, Nannan se abaixou e pegou o filhote no colo. O choro parou. Os adultos puxaram os dois de volta, e a menina saiu sem um arranhão. O cachorro saiu com uma torção leve na pata. Só isso.
O vídeo, republicado pela conta de notícias @chinaminutes, está aqui:
O detalhe que os vídeos não contam
O filhote não era da família.
Segundo o portal chinês China.com, era um cachorro de rua que a família tinha recolhido dias antes e mantinha no terraço.
Ou seja: Nannan desceu três metros dentro do concreto por um cachorro que ela conhecia havia poucos dias. Para ela, isso já bastava.
O pedido da família
Quando o vídeo viralizou, a família fez questão de explicar como tudo foi feito.
"Consideramos totalmente a segurança e garantimos todas as medidas de proteção antes de executar o resgate", disse a mãe de Nannan, identificada só pelo sobrenome, Ma, ao China.com.
Ela também pediu uma coisa: que ninguém repita.
Não bastou para acalmar a discussão. De um lado, muita gente chamou Nannan de "pequena bombeira" e encheu os comentários de elogios.
"A pequena heroína é ótima, corajosa e calma", escreveu uma pessoa. "Bebê anjo, família anjo", resumiu outra, em comentários reunidos pelo site AsiaOne.
De outro lado, muita gente perguntou se valia expor uma criança de três anos a um vão daquele tamanho por causa de um cachorro. Cinto ou não, corda ou não, o que se questionava era a decisão de deixar a menina descer.
As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. A menina foi corajosa. E não deveria ter precisado ser.
E aqui no Brasil, o que fazer?
A pergunta que fica é o que fazer quando um animal cai num lugar onde ninguém alcança. E a resposta é bem mais simples do que descer alguém amarrado.
No Brasil, resgatar animal em situação de risco é trabalho do Corpo de Bombeiros. O Corpo de Bombeiros de Mato Grosso do Sul, por exemplo, deixa claro no próprio site que animais domésticos e selvagens estão na lista do que a corporação salva. O número é o 193, a ligação é gratuita e o atendimento funciona 24 horas.
Bombeiro tem equipamento e tem treino para entrar em espaço apertado. Foi assim em Colatina, no Espírito Santo, em junho. Um cachorro de rua ficou preso num vão de 25 centímetros entre dois muros. A equipe cortou o muro e tirou o animal de lá inteiro, segundo o jornal A Gazeta.
É um trabalho que uma criança, por mais corajosa que seja, não deveria precisar fazer.
Quem ganhou uma casa?
Passada a discussão, sobrou o que importa. Depois do resgate, a decisão saiu na hora: o cachorro foi adotado de vez pela família. O filhote de rua que caiu num buraco saiu de lá com sobrenome.
O próprio vídeo termina com essa cena. Já em casa, de pijama rosa e com o cachorrinho preto no colo, Nannan olha para a câmera, diz quantos anos tem e apresenta o novo morador da casa: um filhote de dois meses. Dois meses de vida, e já com uma história para contar.
E o caso rendeu mais do que um vídeo. Na China, a imprensa estatal aproveitou a repercussão para explicar à população como lidar com cães desconhecidos na rua.
Nannan queria descer como um bombeiro. Desceu. E voltou com o que foi buscar.
Camila é técnica em vestuário e formada em design de moda, então repara no caimento de tudo, inclusive no pelo dos próprios cachorros. Mora com o Bilbo, um Yorkshire, e a Sara, uma Lulu da Pomerânia, dupla que garante que nenhuma roupa preta dela sobreviva a uma tarde inteira. Gosta de tecido, de cor e de entender como as coisas são feitas por dentro, hábito que levou para o jeito de escrever sobre pets.