"A história de amor mais linda que já vivi": bem-te-vi Bento muda forma de veterinária olhar para o céu
Por Ana Carolina Câmara em Aves
Era um dia chuvoso quando a médica veterinária Carolina Haddad, de Santos, no litoral de São Paulo, recebeu uma sacola plástica com uma surpresa lá dentro.
Ao abrir, encontrou um filhote de bem-te-vi que, por causa do mau tempo, havia caído do ninho. Como Carolina era veterinária, a pessoa que encontrou a ave acreditou que aquele seria o melhor lugar para deixá-la.
O problema é que, naquela época, Carolina admite que sabia muito pouco sobre aves silvestres. Mas, apaixonada pela profissão e determinada a ajudá-lo, ela não deixou que isso se tornasse um obstáculo.
Passou a estudar sobre aves, alimentação, desenvolvimento e comportamento, além de contar com a orientação de um colega especializado, que a ajudou durante o processo.
Foi assim que o pequeno ganhou o nome de Bento.
Relação mãe e filho
Bento criou uma ligação muito forte com Carolina e passou a reconhecê-la como sua principal referência de cuidado, em um comportamento semelhante ao chamado imprinting, fenômeno que pode ocorrer principalmente quando aves muito jovens passam a associar um ser vivo aos cuidados parentais.
A partir dali, os dois desenvolveram um vínculo cada vez mais próximo. Carolina acompanhava cada etapa do crescimento de Bento e, quanto mais ele se desenvolvia, mais difícil ficava imaginar o momento em que precisaria deixá-lo partir.
O bem-te-vi, cujo nome científico é Pitangus sulphuratus, é uma das aves mais conhecidas do Brasil. Seu nome popular vem justamente da vocalização característica, que lembra a expressão "bem-te-vi".
Além do canto inconfundível, a espécie chama atenção pela alimentação bastante variada. O bem-te-vi pode consumir insetos, frutas e pequenos animais, característica que ajuda a explicar sua facilidade de adaptação a diferentes ambientes, inclusive áreas urbanas.
Outra curiosidade é que essas aves podem ser bastante territoriais e corajosas. Mesmo não sendo grandes, não é raro vê-las defendendo seu espaço contra aves maiores quando sentem que o território ou o ninho estão ameaçados.
Apesar de todo o carinho que havia surgido entre os dois, Carolina sabia que o objetivo nunca poderia ser transformar Bento em um animal de estimação. Ele precisava voltar para a natureza.
Após aproximadamente seis meses de cuidados e preparação, chegou o momento que ela tanto esperava e, ao mesmo tempo, temia.
A partida
Antes da despedida, Bento passou por uma última avaliação. A ave recebeu uma anilha de identificação e, estando pronta para seguir sua vida, finalmente foi solta.
Foi um momento de liberdade para Bento e de emoção para quem havia acompanhado praticamente toda a sua infância.
Mas a história dos dois não terminou completamente naquele dia.
De vez em quando, Carolina ainda consegue avistar o pequeno voando pelas redondezas, agora livre e vivendo como um bem-te-vi deve viver.
Depois de meses cuidando dele talvez essa seja a melhor recompensa possível: ver Bento seguindo sua própria vida, mas ainda aparecendo ocasionalmente para lembrar que aquele encontro em um dia de chuva mudou a história dos dois.
Repercutiu
Carolina contou a história que viveu ao lado de Bento em um vídeo compartilhado no perfil @acuvetacupunturaveterinaria, no Instagram, no dia 24 de setembro.
A publicação acumulou mais de 132 mil visualizações e centenas de comentários. Muita gente elogiou a dedicação da veterinária e se encantou com o vínculo criado entre os dois.
"Essas experiências não têm preço", comentou uma internauta.
"Sua história é simplesmente emocionante e cativante. É bom saber que existem pessoas boas, sensíveis e que respeitam imensamente os animais", escreveu outra.
Assista:
Carolina faz um alerta para esta época do ano: com a chegada da primavera, é comum encontrar filhotes de aves no chão, mas isso não significa, necessariamente, que estejam abandonados.
Muitas vezes, eles estão apenas aprendendo a voar, enquanto os pais permanecem por perto, alimentando e protegendo os pequenos. Por isso, antes de recolher uma ave aparentemente saudável, o ideal é observar à distância e afastar possíveis perigos, como cães e gatos.
Segundo orientação do IBAMA, filhotes nessa fase podem permanecer no chão. Se estiverem feridos ou realmente órfãos, o correto é procurar ajuda de um órgão ambiental.
Redatora e apresentadora do Canal Amo Meu Pet.
Com formação em Design de Produtos e especialização em Design de Interiores pela Universidade de Passo Fundo, a Ana encontrou sua verdadeira paixão ao unir criatividade, comunicação e o amor pelos animais.
Apaixonada por contar histórias que tocam o coração, ela estudou Escrita Criativa com o escritor Samer Agi e participa do programa JournalismAI Discovery, organizado pela Escola de Economia e Ciências Políticas de Londres e a Iniciativa de Notícias do Google, buscando se aprofundar no universo digital.
Hoje, dedica-se a produção de conteúdos que informam, emocionam, conscientizam e arrancam sorrisos.