“Eu não vou devolver esse cachorro”: Veterinária vê algo grave e se recusa a entregar cão levado para banho e tosa
Por Larissa Soares em Proteção Animal
O que começou como mais um atendimento de rotina em um pet shop acabou se transformando em resgate para um cão vítima de negligência.
Em um vídeo publicado no TikTok, a veterinária Bruna Berlesi contou por que decidiu não devolver um cachorro à tutora após identificar sinais claros de maus-tratos.
"Eu não devolvi ele"
Segundo Bruna, o animal, que hoje atende pelo nome de Billy, chegou ao local apenas para tomar banho e tosa.
Como acontece em sua rotina profissional, todos os cães passam por um check-in veterinário antes do procedimento, e foi nesse momento que algo chamou sua atenção.
“O dia que um cachorro veio pra tomar banho aqui no meu pet shop e eu não devolvi ele pra tutora”, contou a veterinária logo no início do vídeo, que rapidamente viralizou nas redes sociais.
À primeira vista, o estado do cão já preocupava. Billy estava infestado de pulgas e carrapatos, com o pelo extremamente sujo e cheio de nós. No entanto, a situação se revelou ainda mais grave após a tosa.
“Quando a gente tosou, aí eu vi que o negócio tava feio mesmo”, explicou Bruna.
O cachorro estava extremamente magro, com diversas feridas pelo corpo, pele inflamada e sinais evidentes de uma dermatopatia crônica, algo comum em cães da raça shih tzu quando não recebem os cuidados adequados.
Além disso, Billy não era castrado, apresentava verminose severa e tinha úlceras nos dois olhos, um quadro que, segundo a veterinária, indicava que ninguém havia observado o animal com atenção por pelo menos dois meses.
“Úlcera nos olhos não surge do dia pra noite. Era um furo mesmo”, relatou.
“Se eu devolvesse, ele ia voltar pior”
Diante do quadro clínico, Bruna tomou uma decisão difícil, mas que considerou necessária. Após conversar com o marido, que também é sócio, ela concluiu que não conseguiria devolver o animal sabendo que ele voltaria para aquela condição.
“Eu olhei e falei: eu não vou devolver esse cachorro. Se eu devolver, ele vai voltar pior”, disse.
Antes de qualquer atitude definitiva, a veterinária tentou contato com a tutora, buscando entender se ela havia adotado o animal recentemente ou se havia algum outro contexto.
Sem sucesso, Bruna aguardou que a mulher retornasse ao pet shop para buscar o cão.
Conversa, denúncia e respaldo legal
Quando a tutora chegou, Bruna explicou detalhadamente a situação clínica de Billy. Segundo a veterinária, a jovem reconheceu que trabalhava o dia inteiro, não tinha tempo, nem orientação para cuidar de um cachorro com necessidades específicas.
Inicialmente, a tutora concordou que o melhor seria que o animal permanecesse sob cuidados veterinários.
No entanto, após conversar com familiares, houve um questionamento por parte deles.
Diante da situação, Bruna explicou novamente o estado crítico de saúde do cão. Segundo ela, tudo foi feito com respaldo legal.
“Antes de pegar o animal de fato, eu abri um boletim de ocorrência, falei com meu advogado, liguei para a polícia e fiz denúncia na SMAM”, explicou em resposta a um comentário que questionava a ética profissional da decisão.
Além disso, Bruna afirma que convenceu a tutora, de forma consciente e dialogada, de que ela não tinha condições de manter o animal.
Veja o relato:
Maus-tratos a animais é crime no Brasil
No Brasil, maus-tratos a animais é crime, previsto na Lei nº 9.605/1998, a chamada Lei de Crimes Ambientais. Desde 2020, com a sanção da Lei nº 14.064, os casos envolvendo cães e gatos passaram a ter punições mais severas.
A legislação prevê pena de dois a cinco anos de reclusão, além de multa e proibição da guarda, para quem praticar atos de abuso, ferir ou mutilar cães e gatos.
Negligência grave, como falta de alimentação adequada, ausência de cuidados veterinários, abandono de tratamento e condições insalubres, também pode ser caracterizada como maus-tratos.
Casos suspeitos podem ser denunciados à polícia, ao Ministério Público, à Secretaria do Meio Ambiente do município ou por meio de canais como o Disque 181 ou 190, dependendo da urgência.
Um mês depois: um cachorro transformado
Billy está há cerca de um mês sob os cuidados de Bruna. Nesse período, ele passou por check-up completo, tratamento das feridas, vermifugação, banhos terapêuticos semanais, castração e acompanhamento para as úlceras oculares.
A mudança vai além do físico. Segundo a veterinária, o cão também apresentou melhora significativa no comportamento.
“Ele era um pouco mais agressivo, tinha muitos traumas. Hoje ele tá muito mais tranquilo, ganhou peso, tá outro cachorro”, contou.
Bruna afirma que Billy só será colocado para adoção se surgir uma família capaz de oferecer os mesmos cuidados (ou melhores) do que os que ele recebe hoje. Caso contrário, ele ficará com ela.
“Ele já dorme comigo”, disse.
Larissa é jornalista e escreve para o Amo Meu Pet desde 2023. Mora no Rio Grande do Sul, tem hobbies intermináveis e acha que todos os animais são fofos e abraçáveis. Ela se formou em Jornalismo pela Universidade de Passo Fundo e é “mãe” de duas gatas.








