“Come, Lolo, só mais um pouquinho”: Papagaio debilitado recusa comida até ouvir as palavras carinhosas da veterinária
Por Beatriz Menezes em ComportamentoO ditado popular afirma que o amor cura, mas, na medicina veterinária, o afeto tem se mostrado um aliado técnico indispensável para a recuperação de pacientes silvestres.
No início deste mês de março, a médica veterinária Larissa Almeida, especialista em animais selvagens, compartilhou um registro que emocionou internautas ao mostrar os bastidores do tratamento de um papagaio chamado Lolo.
O animal, que chegou sob seus cuidados apresentando sinais visíveis de debilidade e ferimentos na região do pescoço, recusava-se a cumprir uma etapa básica da reabilitação: a alimentação.
“[Ele] tem algumas alterações neurológicas, mas já está em tratamento”, contou nos comentários.
Nas imagens, Larissa aparece segurando a ave envolta em uma toalha azul, utilizando uma técnica de contenção que visa diminuir o estresse do animal durante o manejo.
Com uma paciência característica de quem lida com espécies sensíveis, a profissional inicia um diálogo carinhoso com o paciente.
Entre tentativas de oferecer a papinha em uma colher pequena, ela incentiva o animal com palavras de apoio e gestos de proximidade, encostando o rosto nas penas do papagaio para transmitir segurança.
A resistência inicial de Lolo, que parecia "dengoso" e relutante em aceitar o alimento, cedeu diante da insistência gentil da veterinária.
Após alguns instantes de cuidado, o pássaro finalmente aceitou a dieta pastosa, momento celebrado pela médica com sorrisos e frases de encorajamento.
Larissa traz um olhar sobre como o bem-estar psicológico de animais internados influencia diretamente na resposta imunológica e na velocidade de cicatrização de feridas.
O vídeo obteve 1,4 milhões de visualizações, 239 mil curtidas e 1.906 comentários.
“Profissão tão linda, espero que as pessoas deem mais valor”.
“Amor cura !! Em tempos difíceis nesse mundo, segundos de amor confortam um pouco nosso coração !Q lindo Lari !”.
“Que coisa mais querida esse denguinho todo”.
Foram alguns dos comentários.
A especialização como pilar da sobrevivência
Segundo o São Miguel Laboratório Veterinário, a escolha de um profissional especializado em medicina de animais selvagens e exóticos é determinante para casos como o de Lolo.
Diferente de cães e gatos, as aves possuem uma anatomia e fisiologia únicas, incluindo um sistema respiratório composto por sacos aéreos e ossos pneumáticos.
Qualquer erro no manejo nutricional ou na dosagem de medicamentos pode ser fatal para um animal de pequeno porte e metabolismo acelerado.
Médicos veterinários focados em aves precisam dominar não apenas a patologia, mas também o comportamento das espécies.
Papagaios são criaturas altamente sociais e inteligentes, comparáveis em cognição a crianças de dois anos.
Quando são retirados de seu ambiente para tratamento, o isolamento e o medo podem gerar anorexia secundária, tornando o suporte emocional parte integrante do protocolo clínico.
Diagnóstico e prevenção em aves silvestres
As doenças mais comuns que levam aves à internação incluem a clamidiose — uma infecção bacteriana que afeta o sistema respiratório e pode ser transmitida aos humanos — e problemas metabólicos derivados de dietas inadequadas.
Muitas vezes, tutores acreditam que uma alimentação baseada exclusivamente em sementes de girassol é suficiente, quando, na verdade, o excesso de gordura pode causar lipidose hepática, comprometendo órgãos vitais.
A prevenção envolve check-ups regulares que incluem exames de fezes e sangue, fundamentais para detectar fungos ou bactérias antes que os sintomas clínicos apareçam.
Aves têm o instinto natural de esconder sinais de doença para não parecerem vulneráveis a predadores, o que torna o olhar treinado do especialista ainda mais necessário.
O impacto do enriquecimento ambiental
Além do tratamento medicamentoso, a recuperação de animais como o papagaio Lolo depende de um ambiente que estimule sua saúde mental.
O uso de brinquedos, poleiros de diferentes texturas e a manutenção de uma rotina de luz e sono são essenciais.
A interação mostrada por Larissa Almeida no vídeo exemplifica o "enriquecimento social", onde o contato positivo com o cuidador reduz os níveis de cortisol, o hormônio do estresse.
Manter a higiene rigorosa do recinto e oferecer água fresca para banhos também contribui para a integridade da plumagem, que funciona como a primeira barreira de defesa do corpo.
Quando a técnica médica se une à empatia, os resultados ultrapassam os prontuários.
