"Me falta ar para descrever a situação dela": Debaixo de quilos de pelos existia uma vidinha pedindo um pouco de amor
Por Larissa Soares em Proteção Animal
Debaixo de quase três quilos de pelos embolados, carrapatos e sujeira, existia uma cachorrinha tentando sobreviver.
Muito magra, debilitada e sem forças nem para levantar a cabeça, ela chegou à ONG Grupo Força Animal, em Curitiba (PR), em um estado que deixou até profissionais acostumados com resgates profundamente abalados.
A cadela, que depois ganhou o nome de Clotilde, foi encontrada em condições tão graves que a equipe precisou tosá-la antes mesmo de conseguir iniciar o atendimento veterinário.
Não era possível localizar as patas, acessar as veias ou sequer entender direito como estava o corpo dela sob toda aquela camada endurecida de pelos.
“Me falta o ar para descrever a situação dela”, escreveu a médica veterinária Danielly Savi, responsável pela ONG.
Resgatada em estado grave
O resgate aconteceu no dia 18 de maio. Em um vídeo publicado nas redes sociais, Danielly mostrou a cachorrinha enrolada em placas gigantescas de pelos endurecidos. Enquanto tentava manipulá-la com cuidado, explicava o tamanho da gravidade.
“Aqui debaixo desse monte de pelo embolado existe uma vida gritando por socorro.”
Segundo a veterinária, Clotilde estava em hipotermia, extremamente fraca e infestada de carrapatos.
Alguns eram tão grandes que impressionaram até os seguidores acostumados a acompanhar casos difíceis de resgate animal.
“Pouquíssimas vezes, numa emergência, a gente precisou tosar o animal primeiro. A gente não consegue sequer medicar ela.”
A cena mais chocante era perceber que os pelos haviam se transformado quase em uma armadura rígida ao redor do corpo da cachorrinha.
Em alguns pontos, as placas emboladas estavam tão apertadas que prendiam os movimentos das pernas.
Além do sofrimento físico, a equipe também se emocionou com a reação dela durante os primeiros cuidados. Mesmo debilitada, Clotilde permitiu ser ajudada.
“Ela acalmou no tapetinho térmico. Deixou tosar para ser medicada. Entregue”, contou Danielly.
Conforme os profissionais removiam os pelos, aparecia uma cadela extremamente magra, desnutrida e sem forças. Foram retirados quase três quilos de sujeira e pelos endurecidos.
Depois da tosa, a equipe iniciou uma corrida contra o tempo.
Clotilde foi levada para o CTI veterinário e passou a receber monitoramento intensivo. Durante toda a madrugada, os veterinários tentaram estabilizar a glicemia da cadela, que despencava constantemente.
“A gente mal conseguia estabilizar e ela já caía de novo”, relatou a ONG.
Ela precisava comer, mas o corpo já não tinha força suficiente. Precisava de energia, mas mal conseguia levantar a cabeça. Os exames mostraram um quadro extremamente delicado.
Segundo a equipe, havia suspeita forte de hemoparasitose, além de uma infecção severa e anemia grave. A cachorrinha precisou de medicações contínuas, alimentação hipercalórica, exames emergenciais e transfusão de sangue.
Foi então que outro cãozinho resgatado pela ONG entrou na história.
Herói de quatro patas
Henrique, um cachorro salvo anteriormente pelo grupo, se tornou o doador de sangue de Clotilde. A transfusão foi realizada na tentativa de ajudá-la a continuar lutando.
Muita gente não sabe, mas cães também podem doar sangue para salvar outros animais. De acordo com o Conselho Regional de Medicina Veterinária de São Paulo, os bancos de sangue veterinários frequentemente enfrentam dificuldades para encontrar doadores suficientes para atender a demanda.
Para doar, os cães precisam atender alguns critérios. Normalmente devem pesar mais de 25 quilos, ter entre um e oito anos de idade, estar saudáveis, vacinados e protegidos contra pulgas e carrapatos.
O temperamento dócil também é importante, já que o sangue costuma ser coletado da veia jugular, localizada no pescoço.
Segundo a médica-veterinária Alessandra Fonseca, do CRMV-SP, o ideal é que a doação seja feita em hospitais ou clínicas com estrutura adequada para acompanhar o animal durante o procedimento.
A doação costuma durar cerca de uma hora e pode salvar vidas.
“Enquanto houver vida vamos lutar”
Mas, apesar de todos os esforços, o quadro seguia extremamente grave.
A equipe explicou que anos de abandono haviam provocado danos severos no organismo da cachorrinha.
Os rins apresentavam lesões irreversíveis, alterações nos rins e exames apontavam problemas importantes no fígado, baço e intestino.
Clotilde também desenvolveu sepse e começou a apresentar sinais neurológicos.
“Ela está partindo”, escreveu a ONG em uma das atualizações mais difíceis.
Mesmo assim, os profissionais seguiram ao lado dela o tempo inteiro, oferecendo conforto, aquecimento, carinho e cuidados paliativos. “Enquanto houver vida vamos lutar.”
Os comentários nas redes sociais viraram uma corrente de apoio. Muitas pessoas disseram acreditar que Clotilde resistiu até aquele momento justamente para finalmente experimentar amor e cuidado.
“Ela precisava saber que alguém a amou e cuidou de verdade até seu último fiozinho de vida”, escreveu uma internauta.
“Chegou até vocês para ganhar um abraço, um carinho, um cobertor quentinho”, disse outra.
“Está se sentindo segura, baixou a guarda, sabe que pode confiar e descansar”, escreveu mais uma pessoa.
Clotilde segue internada em estado grave, mas rodeada de carinho e conforto. Já o cãozinho Henrique está disponível para adoção responsável na @associacaogfa.
Larissa é jornalista e escreve para o Amo Meu Pet desde 2023. Mora no Rio Grande do Sul, tem hobbies intermináveis e acha que todos os animais são fofos e abraçáveis. Ela se formou em Jornalismo pela Universidade de Passo Fundo e é “mãe” de duas gatas.








