Cadela se arrasta em busca de carinho, sem saber que seria a última vez que precisaria implorar por afeto
Por Larissa Soares em Proteção Animal
Uma cadela que passou cerca de dois meses se arrastando pelas ruas da Baja California, no México, voltou a ter motivos para confiar nas pessoas após encontrar um casal disposto a mudar completamente sua história.
Birdie, como foi batizada após o resgate, vivia com uma lesão grave na coluna, sem conseguir movimentar as patas traseiras.
Ainda assim, quando viu Alli Jaeger e Nick Reilly pararem o veículo onde viajavam, fez um esforço para ir até eles em busca de carinho, sem imaginar que aquele seria o último dia em que precisaria implorar por atenção.
O casal vive em uma van e percorre cidades da região desde novembro de 2024, com um objetivo: resgatar cães, oferecer atendimento veterinário e prepará-los para encontrar uma família definitiva.
Foi durante um desses trajetos, no dia 8 de julho, que Birdie entrou na vida do casal.
O resgate
Enquanto dirigiam pela cidade, um movimento diferente à margem da estrada chamou a atenção de Alli. Ao olhar com mais cuidado, ela percebeu que uma cachorra tentava se locomover arrastando o corpo pelo chão.
Sem pensar duas vezes, eles estacionaram e correram em direção ao animal. Antes mesmo que conseguissem alcançá-la, Birdie começou a se mover na direção deles. Apesar da dificuldade para avançar, fez questão de atravessar a distância que os separava.
Pouco depois, um morador da região explicou que a cadela havia sido atropelada aproximadamente dois meses antes.
Segundo ele, Birdie costumava acompanhá-lo quando saía para cavalgar e era conhecida pelo temperamento dócil e sociável.
O homem também deixou claro que eles poderiam levá-la sem preocupação, já que o mais importante naquele momento era que ela finalmente recebesse os cuidados de que precisava.
Alli contou que ela e Nick se perguntaram se realmente estavam preparados para assumir um caso tão complexo. A resposta dos dois foi exatamente a mesma: não.
Mesmo assim, concluíram que talvez nunca existisse um momento em que alguém se sentisse totalmente preparado para enfrentar uma situação como aquela. Se Birdie havia continuado lutando para sobreviver durante todo aquele tempo, eles também não desistiriam dela.
Primeiros cuidados
Logo no dia seguinte aconteceu a primeira consulta veterinária. A cadela recebeu banho, iniciou tratamento para infecções e inflamações e passou pelos primeiros exames clínicos.
A pequena clínica da cidade não possuía equipamentos capazes de realizar exames mais avançados, como radiografias, mas era suficiente para iniciar o atendimento enquanto o casal organizava o encaminhamento para especialistas.
Durante a avaliação, o veterinário percebeu que ela aparentemente não apresentava sensibilidade da região inferior da coluna até as patas traseiras. Ainda assim, preferiu não fazer afirmações antes dos exames de imagem.
Enquanto aguardavam respostas, Alli e Nick decidiram concentrar todas as energias no que já era possível fazer. Medicamentos, alimentação adequada, descanso, carinho e muitas experiências positivas passaram a fazer parte da rotina da cadela.
Conhecendo o mar
Poucos dias depois, Birdie conheceu o mar. Assim que viu as ondas, saiu correndo pela areia utilizando apenas as patas dianteiras.
Segundo Alli, não importava quantas patas funcionassem. Aquela cachorra sempre encontrava uma maneira de voar.
Ela também explicou que acredita que a recuperação de um animal não depende apenas dos tratamentos médicos. Para o casal, contato com a natureza, liberdade, aventuras e afeto também fazem parte do processo de cura emocional de cães que passaram por experiências traumáticas.
Enquanto Birdie explorava praias e trilhas, os exames continuavam sendo organizados.
Adaptação à cadeira de rodas
Quando a cadeira de rodas de Birdie chegou, toda a equipe imaginou que a cadela sairia correndo imediatamente pela praia. A reação, porém, foi completamente diferente.
Birdie permaneceu imóvel. Ela tremia, parecia confusa e não demonstrava qualquer vontade de dar o primeiro passo.
Depois de horas tentando incentivá-la, Alli e Nick decidiram retirar a cadeira.
Assim que voltou ao chão, Birdie disparou pela areia exatamente como fazia todos os dias, arrastando o corpo e demonstrando uma felicidade contagiante. O casal enxergou naquela reação uma lição importante.
“Embora seja fácil para nós, humanos, focarmos no que ela não tem e nas coisas que achamos que ela ‘precisa’ para se tornar capaz, a Birdie nunca se concentrou em nada disso. Ela simplesmente aprendeu a viver a vida que lhe foi dada. Ela se adaptou, superou e encontrou alegria de qualquer maneira.”
Mesmo assim, eles não desistiram da cadeira. Entendiam que confiança também precisava ser construída.
No dia seguinte, encontraram uma estratégia diferente para guiá-la. Aos poucos, Birdie começou a compreender o funcionamento do equipamento.
Quando finalmente ganhou confiança, saiu correndo em alta velocidade pela praia e precisou até aprender a controlar o entusiasmo para não esbarrar nos outros cães durante as brincadeiras.
“Parece que essa menina tem sede de velocidade e está um pouco imprudente com essa velocidade recém-adquirida”, riu Alli.
A protetora aproveitou para explicar que Birdie não vai passar o tempo todo na cadeira de rodas. Ela será apenas uma ferramenta capaz de reduzir o desgaste provocado pelo atrito constante contra o chão e proporcionar mais liberdade durante caminhadas e passeios.
Diagnóstico difícil
Dias depois, finalmente vieram as radiografias. Mas as respostas não foram animadoras.
A coluna vertebral de Birdie estava dividida em duas partes e não existia possibilidade de recuperar os movimentos das patas traseiras.
A partir daquele momento, o objetivo deixou de ser fazê-la voltar a andar sobre quatro patas. O foco passou a ser oferecer a melhor qualidade de vida possível para o futuro.
Depois de analisar todas as possibilidades, a equipe veterinária e o casal decidiram realizar uma dupla amputação das patas traseiras.
No início de agosto, Alli explicou que aquela seria provavelmente a decisão mais difícil de toda a trajetória da cadela.
Ela contou que era assustador imaginar Birdie voltando para casa com metade do corpo diferente daquele que conheceram poucas semanas antes.
Ao mesmo tempo, acreditava que justamente aquela cirurgia poderia proporcionar a liberdade que a cachorra tanto demonstrava querer.
Vontade de viver
Durante o período que antecedeu o procedimento, Birdie também descobriu outro lugar onde parecia esquecer completamente as limitações físicas.
Nadando, ela finalmente conseguia sentir o corpo leve, sem o peso constante provocado pela lesão na coluna.
Para o casal, era impossível assistir àquela cena sem perceber o quanto a cadela gostava de viver.
Cirurgia e recuperação
No dia da cirurgia, Birdie foi internada logo pela manhã. Alli contou que a equipe médica pediu que ela e Nick não voltassem para visitá-la nas primeiras horas do pós-operatório.
Sempre que revia os dois, Birdie ficava tão feliz que começava a se agitar intensamente. Como o procedimento era delicado, os veterinários preferiram evitar qualquer risco de abertura dos pontos.
Poucas horas depois veio a notícia que todos aguardavam: a cirurgia havia terminado.
Birdie estava acordando bem e os médicos informaram que todo o procedimento ocorreu conforme o planejado.
Ao receber a atualização, Alli compartilhou o sentimento de alívio ao voltar a ver o rosto tranquilo da cadela que, poucas semanas antes, havia atravessado uma rua inteira se arrastando apenas para conseguir um pouco de carinho.
Agora, cercada por pessoas que decidiram lutar ao lado dela desde o primeiro encontro, Birdie inicia mais uma etapa da recuperação.
Quando estiver completamente cicatrizada e adaptada à nova rotina, a expectativa do casal é prepará-la para encontrar uma família definitiva, capaz de oferecer todo o amor que ela descobriu desde o dia em que deixou de enfrentar sua batalha sozinha.
Larissa é jornalista e escreve para o Amo Meu Pet desde 2023. Mora no Rio Grande do Sul, tem hobbies intermináveis e acha que todos os animais são fofos e abraçáveis. Ela se formou em Jornalismo pela Universidade de Passo Fundo e é “mãe” de duas gatas.












