Mamãe que teve filhotes levados por cobra balança o rabinho ao receber ajuda com nova ninhada de 9 bebês
Em Peruíbe (SP), um projeto corre para tirar a mãe e os nove filhotes e bancar o resgate, antes que essa ninhada tenha o fim da anterior.
Por Camila Valmorbida em Proteção Animal
Bia Sanchez tinha um plano naquele dia. A protetora do Projeto Entre Patas, de Peruíbe, no litoral sul paulista, tinha saído para socorrer outros cães de rua, cheios de sarna, quando uma moradora a parou no meio do caminho. Ela ainda não sabia, mas a lista de resgates estava prestes a ganhar dez nomes.
A mulher contou que conhecia uma cachorrinha que engravidava sem parar, e que a família não sabia mais o que fazer. Enquanto as duas conversavam, a própria cadela apareceu, do nada, como se tivesse entendido que alguém finalmente falava dela.
Bastou um olhar. Era uma vira-lata que, nas palavras da protetora, parecia "uma salsichinha meio beagle, uma gracinha".
Mas não foi a graça que travou a Bia ali. Foi a lembrança. Fazia cerca de um mês que o projeto tinha perdido a Zara, outra cadela, morta por complicações de uma gestação, com mastite e uma série de problemas. Os filhotes da Zara seguem com o grupo até hoje, à espera de um lar, um lembrete diário do que aconteceu.
A protetora não escondeu o que sentiu:
"Aquela cadela me lembrou muito a Zara."
As mamas enormes, no meio da sujeira, eram o mesmo sinal de alerta. O medo era concreto: com filhotes de novo, uma inflamação poderia aparecer e a mãe podia morrer em poucos dias, exatamente como a Zara. Bia não conseguiu seguir em frente. Resolveu ir atrás para entender a situação.

Ela entrou no local e encontrou os nove filhotes, com quase dois meses, disputando o leite de uma mãe já exausta. Foi então que a família contou a história da ninhada anterior.
Segundo eles, a última cria a cadela teve no meio do mato. E, no mato, havia uma cobra.
"Eles acreditam que a cobra comeu todos os filhotes, porque não encontraram nenhum. Um dia, simplesmente sumiu tudo", relatou a protetora.
Ou seja, os nove que mamavam agora eram uma ninhada nova, que veio depois da perda. A cadela já tinha enterrado uma família inteira sem nem saber. E o risco de a história se repetir estava ali, à vista de todo mundo.
Uma condição para o resgate
A cadela tinha dono, mas vivia à própria sorte. Dormia num cômodo improvisado e saía à rua para comer, contando com a ajuda dos vizinhos e da própria protetora, que também deixou comida para ela. Comida garantida, ela não tinha. Carinho, menos ainda. E, sem castração, emendava uma gestação na outra, como se o corpo dela existisse só para isso.
Cada nova ninhada repetia, para aquela cadela, o mesmo risco que tirou a vida da Zara. Foi isso que Bia decidiu interromper.
A família, que já vinha tentando arrumar lares para os filhotes, aceitou entregar os nove ao projeto. A protetora, no entanto, fez questão de uma condição.
"A gente poderia levar os filhotes, mas precisava levar com a mãe", explicou. Só assim o ciclo de ninhadas de risco se encerra de vez.
Os donos concordaram. Faltava, então, o principal: o dinheiro do resgate.
O custo de assumir dez de uma vez
Assumir dez cães ao mesmo tempo sai muito caro, e ninguém sabe disso melhor do que quem já faz esse trabalho com o próprio bolso. A conta imediata, com hospedagem nos próximos meses, exames de todos, vacinas dos filhotes e cuidados básicos, já passa de R$ 6.000. Na estimativa da protetora, uma ninhada como essa dificilmente sai por menos de R$ 10.000, porque a hospedagem se estende até cada filhote ser adotado.
Por isso, o projeto correu atrás da verba antes de ir buscar os cães. O que movia o resgate cabia numa frase dela:
"Ela não estava na minha lista, mas como ignorar uma situação dessa?"

Atualização: a mãe e os nove filhotes foram resgatados
Deu certo. A cadela e os nove filhotes saíram daquele lugar e já estão sob os cuidados do Projeto Entre Patas. A protetora contou a novidade em um post no Instagram, com vídeo do resgate, e a legenda começava com três palavras que resumem tudo: "gente, conseguimos".
O relato do dia, porém, veio com um detalhe que doeu mais do que qualquer conta:
"Acreditam que ninguém quis se despedir? Ninguém ligou? Não havia amor nenhum por essa pequenina."
Ninguém foi até o portão. Ninguém perguntou para onde ela ia. Depois de tantas ninhadas, tanta fome e uma família inteira de filhotes perdida no mato, a mãezinha foi embora sem que uma única pessoa daquela casa sentisse a falta dela.
Agora, segundo Bia, ela e os filhotes vão ter a chance de uma vida digna e com amor. Mas quem resgata sabe que o trabalho mais difícil começa depois: manter dez cachorros até que todos estejam saudáveis e encontrem suas famílias.
Logo na chegada, todos passaram por exames de sangue. O projeto comprou vermífugos, antipulgas e medicamentos, porque os dez chegaram lotados de pulgas e carrapatos. A mãe vai receber cuidados extras com as mamas, aquelas mesmas que acenderam o alerta no primeiro olhar, e, assim que estiver liberada, será castrada. Nunca mais uma gestação de risco. Na sequência, vem a vacinação dos filhotes e dela, e todo o restante até que cada um esteja pronto para ir para casa.
"São 10 cachorros de uma vez. A gente não sabe se eles vão ficar um mês, dois, três… e cada mês aqui significa mais custos", escreveu a protetora.
O resgate faz parte de uma meta maior: o projeto quer chegar a 30 vidas resgatadas em setembro. Quase 20 já saíram das ruas, e ainda há nove esperando a vez de chegar.
Como ajudar
Quem quiser fazer parte dessa história pode contribuir com um PIX para entrepatas.projeto@gmail.com ou pela vaquinha no link da bio do perfil, que aceita cartão. Também dá para apadrinhar o projeto todos os meses, com o valor que fizer sentido. Nas palavras da protetora, R$ 1 faz diferença, R$ 5 faz diferença: qualquer contribuição conta quando muita gente resolve ajudar junto.
A saúde dos dez ainda vai se revelar aos poucos, exame a exame. Mas uma coisa já mudou: pela primeira vez, essa mãezinha tem alguém torcendo por ela. E o objetivo segue sendo um só, que a história dessa ninhada termine diferente da história da Zara.
Para acompanhar a recuperação da mãe e dos nove filhotes, e os próximos resgates, é só seguir o Projeto Entre Patas no perfil @projetoentrepatas.
Camila é técnica em vestuário e formada em design de moda, então repara no caimento de tudo, inclusive no pelo dos próprios cachorros. Mora com o Bilbo, um Yorkshire, e a Sara, uma Lulu da Pomerânia, dupla que garante que nenhuma roupa preta dela sobreviva a uma tarde inteira. Gosta de tecido, de cor e de entender como as coisas são feitas por dentro, hábito que levou para o jeito de escrever sobre pets.







