Galo começa a fazer alerta, galinhas procuram abrigo e imediatamente fazendeira percebe algo errado
Elas se esconderam embaixo do roseiral. Só quando a câmera subiu para o telhado é que a cena fez sentido.
Por Camila Valmorbida em Mundo Animal
No quintal de uma casa de campo no Texas, nos Estados Unidos, numa tarde de agosto, todas as galinhas estavam no mesmo lugar ao mesmo tempo.
Espremidas embaixo de um roseiral, coladas na parede de tijolos. Nenhuma ciscando, nenhuma no meio do gramado. Um silêncio que quem cria galinha sabe que não é normal.
O esconderijo não foi escolhido no susto. É o vão embaixo do roseiral, entre os galhos cheios de espinho e a parede: telhado por cima, muro atrás e uma única frente para vigiar.
E não foi gente que mandou elas se esconderem.
"Thor avisou que tinha algo errado", escreveu a dona da casa na tela do vídeo.
Thor é o galo. Quem filmou foi a Thali, brasileira que mora no campo, no Texas, e mostra a rotina do sítio no perfil @thali_lifetx, com 237 mil seguidores. A cena passou de 147 mil curtidas e foi compartilhada 2,2 mil vezes.
Quem deu a ordem
Aviso de galo não é sugestão. É ordem, e o bando obedece na hora, sem conferir o motivo.
Thor ficou no meio do gramado, com o pescoço esticado, cantando. Não correu junto com elas: ficou onde dava para ser visto. Se alguma coisa fosse descer do telhado, era para descer nele.
Os gansos brancos continuaram pastando, sem se abalar. O aviso não era para eles.
O que estava na chaminé
Só quando a câmera sobe é que a cena faz sentido.
No alto do telhado, pousado bem no chapéu da chaminé, estava um urubu.

Ele não estava sobrevoando nem passando reto. Estava parado ali, de cabeça baixa, olhando o quintal lá embaixo, do ponto mais alto da casa.
O urubu daqui é o mesmo
Fica a pergunta que o vídeo não responde: aquele urubu era perigo de verdade para as galinhas?
Segundo o Aves de Rapina Brasil, o urubu-de-cabeça-preta vive de carniça. Come principalmente carcaças e captura bicho vivo só quando ele está ferido, muito fraco ou ainda é filhote, como os de tartaruga e de ave.
Ou seja: galinha adulta e saudável não é presa dele. O risco real ali seria para um pintinho.
E não é uma ave estrangeira. É a mesma espécie que voa sobre as cidades brasileiras.
A distribuição do urubu-de-cabeça-preta vai "desde a região central dos Estados Unidos, América Central, até a Terra do Fogo, incluindo todo o Brasil", registra o Aves de Rapina Brasil.
O urubu da chaminé no Texas é o mesmo urubu da caixa d'água aqui.
O Aves de Rapina Brasil registra ainda um hábito que ajuda a entender a cena: o urubu se acostuma com a presença humana e, em alguns lugares, circula junto de galinhas e outras aves domésticas.
Repercussão
Nos comentários, quase ninguém falou do urubu. Falaram das galinhas.
"Silêncio! Estou assistindo minha série favorita sobre a vida das galinhas", escreveu uma seguidora, no comentário mais curtido do post.
"Que fofo, as galinhas obedecem, coisa mais linda de ver", disse outra.
A conta da Thali é isso o tempo todo: ela mostra a horta, o pão de fermentação natural e os bichos soltos no terreno, e tem até um destaque só de galinhas. Dois dias depois desse vídeo, publicou outro com os galos cantando.
A legenda que ela deu à cena do urubu é curta e resume o que os 1,9 mil comentários repetiram:
"Como um bom galo protege suas galinhas"
Nos comentários, ela mesma contou como a história terminou:
"Ah o urubu tava só de passagem ou resolveu não arriscar e foi embora", respondeu a uma seguidora.
Depois disso, o quintal voltou ao normal. As galinhas saíram de baixo do roseiral uma a uma, ainda desconfiadas, Thor voltou a circular e os gansos seguiram no gramado, como se nada tivesse acontecido.
O alerta do Thor não impediu um ataque, porque ataque nenhum estava a caminho. Ele fez outra coisa, que é o trabalho de todo dia de um galo: tirou o bando do gramado aberto antes de saber se precisava. Ninguém agradeceu, e ele não precisava que agradecessem. Num dia em que fosse um gavião em vez de um urubu, essa diferença de segundos seria a única que importaria.
Camila é técnica em vestuário e formada em design de moda, então repara no caimento de tudo, inclusive no pelo dos próprios cachorros. Mora com o Bilbo, um Yorkshire, e a Sara, uma Lulu da Pomerânia, dupla que garante que nenhuma roupa preta dela sobreviva a uma tarde inteira. Gosta de tecido, de cor e de entender como as coisas são feitas por dentro, hábito que levou para o jeito de escrever sobre pets.









