"Ela gritava colo, agora pede carinho na barriga": Transformação de cachorrinha traumatizada emociona protetora
Por Beatriz Menezes em Proteção Animal
A protetora de animais Paola Saldivia, integrante do Instituto Eu Salvo Vidas, registrou a evolução no quadro comportamental da cadela Loggi.
O animal havia sido resgatado em agosto próximo a uma avenida de tráfego intenso em Canoas, no Rio Grande do Sul.
Na ocasião, a cachorrinha apresentava sinais severos de trauma, medo e estresse acumulado devido ao abandono nas ruas.

"Resgate difícil que quase faz o coração sair pela boca. Quanto mais ela chegava perto de mim, mais receio eu sentia de ela fugir pro meio dos carros, mas a vontade de pegá-la foi maior. Nessas horas só temos uma opção, AGARRAR E NÃO SOLTAR, mesmo que isso incluía mordidas nos braços e mãos", contou Paola no primeiro contato que teve com a cachorrinha em 21 de agosto.
Durante o resgate na via pública, a cadela reagiu de forma defensiva ao tentar morder a protetora por conta da aproximação e do barulho dos automóveis.
A equipe do abrigo utilizou alimento para atrair o animal até uma caixa de transporte individual.
A contenção física garantiu o deslocamento em segurança até a sede da instituição, impedindo que o animal fugisse em direção aos veículos.
"O mais importante é salvá-la… depois a gente se entende, bem vinda LOGGI, tu me mordeu todinha, mas eu sei q vai me retribuir com beijos depois … tu não vai mais precisar catar lixo pra se alimentar", acrescentou.
O histórico de privação de alimento e maus-tratos comprometeu a adaptação inicial do animal ao ambiente do abrigo.
Nos primeiros atendimentos veterinários, a cadela continuou demonstrando arisco e agressividade reativa.
A equipe médica iniciou tratamentos de higienização, exames clínicos gerais e alojamento em um espaço reservado visando a estabilização do estresse.
Após quatro dias de resgate e acompanhamento contínuo com suporte nutricional, a cadela começou a responder aos estímulos positivos da equipe.
O resultado não poderia ser melhor!
Paola e os integrantes do Instituto só tinham um objetivo: conquistar o coração de Loggi, como ela foi batizada.
Em um registro recente, o animal permitiu o contato físico direto, aproximando-se da protetora, balançando a cauda e subindo em seu colo.
A demonstração de confiança marcou o início bem-sucedido da fase de socialização da cadela dentro do abrigo.
"'Tu tava balançando teu rabo pra mim? É sério isso? Eu não to acreditando que tem alguém querendo ser minha amiga", disse a protetora emocionada com a receptividade de Loggi.
A publicação do dia 25 de agosto conta com um milhão de visualizações, 102 mil curtidas e 4.125 comentários.
"Nada resiste ao amor. Coração da gente fica quentinho com vídeos assim".
"Ela só estava assustada, agora já conhece o amor".
"Como não se emocionar, em meio a tanta maldade desse mundo, o amor cura".
"Chorei. Conquistar a confiança de um bichinho que era puro medo é um dos melhores sentimentos que existe. Eu sinto claramente Deus quando acontece".
São alguns dos comentários.
Confira abaixo:
A atuação faz parte das rotinas de atendimento do Instituto Eu Salvo Vidas, projeto fundado em meados de 2020 na cidade de Canoas.
A entidade começou suas atividades com recursos escassos e expandiu a estrutura física para acolher centenas de animais vítimas de negligência e abandono.
A organização atua diretamente na recuperação física e psicológica de animais resgatados até que fiquem aptos para a adoção.
Os desdobramentos desse resgate e o acompanhamento das atividades da instituição dependem do apoio contínuo da sociedade.
O instituto mantém suas operações por meio de doações financeiras, venda de produtos oficiais, divulgação em redes sociais e adoções responsáveis.
A equipe do abrigo informou que Loggi continuará sob cuidados veterinários e comportamentais até a conclusão de sua recuperação total.
Mas por que a cachorrinha gritava se não estava machucada?
Cães traumatizados gritam mesmo sem dor física porque o cérebro deles sofre de hipervigilância crônica provocada pelo Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).
Conforme explicam os especialistas da Faculdade de Medicina Veterinária da Texas A&M University, o trauma faz com que o cão perca a capacidade de avaliar o perigo real.
Por isso, quando o animal passa por um gatilho, como um toque de surpresa ou um barulho alto, o seu cérebro reativa a memória do evento doloroso do passado.
Essa lembrança dispara um reflexo de pânico imediato. Estudos publicados no National Center for Biotechnology Information (NCBI) comprovam que esse estresse severo gera respostas de defesa emocional totalmente desproporcionais, como a vocalização aguda.
Na prática o cão sofre de uma forte ansiedade de antecipação.
Ele não grita porque está machucado agora, mas porque a memória dele está tão viva que ele tem a certeza absoluta de que vai sofrer uma nova agressão naquele instante.
Mas como vimos no caso de Loggi, um pouco de amor, carinho e paciência é capaz de curar um coração traumatizado.









