Vira-lata “grávida” pede ajuda a veterinário que passeava na praia, e ele se surpreende ao descobrir que não havia filhotes
Por Beatriz Menezes em Proteção Animal
O médico veterinário Effermberg Viana transformou um passeio de domingo na praia de Flecheiras no Ceará em uma missão de resgate.
Ao encontrar uma cadela vira-lata caramelo com o abdômen severamente inchado, Viana acreditou que o animal estava em estágio avançado de gestação. O diagnóstico real surgiu apenas após exames clínicos em sua clínica veterinária.
A cadela não esperava filhotes, ela sofria de ascite, um acúmulo de líquido na cavidade abdominal provocado por uma insuficiência cardíaca direita.
O animal apresentava sinais nítidos de exaustão e sede intensa sob o sol. Sensibilizado pela situação, o veterinário ofereceu água e carinho, mas o comportamento da cadela mudou o rumo do dia.
Ela passou a seguir o profissional pela areia, o que motivou a decisão de levá-la para casa. O plano inicial era simples: oferecer abrigo, aguardar o nascimento dos supostos filhotes, realizar a doação dos animais e castrar a fêmea.
Batizada como Maria José, ou Mazé, a cadela recebeu cuidados imediatos como banho, alimentação e descanso. A estrutura familiar do dermatologista, que já contava com gatos, acolheu a nova integrante sem resistência.
No entanto, a protuberância na barriga, que o veterinário estimava abrigar pelo menos cinco filhotes, exigia uma confirmação técnica.
A reviravolta na história ocorreu durante a realização de um ultrassom. Em vez de batimentos cardíacos fetais ou estruturas ósseas de filhotes, as imagens revelaram apenas líquido.
O procedimento médico retirou uma amostra avermelhada do abdômen através de uma seringa, confirmando que Mazé sofria de ascite.
Essa condição clínica faz com que os órgãos fiquem submersos em fluido, gerando o inchaço que simulava a gravidez.
Confira o vídeo abaixo:
A partir desse momento, a prioridade mudou para a investigação da causa primária da ascite. Em 22 de outubro, as primeiras atualizações mostraram que Mazé já respondia bem ao tratamento paliativo inicial.
O inchaço abdominal diminuiu consideravelmente, devolvendo mobilidade e conforto ao animal.
Mesmo com a melhora visual, a origem do problema permanecia desconhecida pelos tutores e pelos seguidores que acompanhavam o caso pelas redes sociais.
A solução do mistério clínico e sobre o passado da cadela chegou em 5 de novembro. O alcance das postagens de Effermberg permitiu que a antiga família do animal entrasse em contato.
Através de mensagens de aplicativo, uma mulher identificou a cadela como Maggie. Ela explicou que o pai cuidava do animal naquela mesma região de Flecheiras.
Diante da nova situação de saúde e do vínculo já estabelecido com o veterinário, os antigos responsáveis concordaram que a permanência com o novo tutor seria o melhor caminho para a sobrevivência da cadela.
Com a posse oficializada, Viana aprofundou a investigação médica, o protocolo incluiu novos ultrassons, exames de sangue para detectar dirofilariose e raio-X de tórax. O exame decisivo foi o ecocardiograma.
O teste permitiu visualizar o funcionamento do coração e confirmar a insuficiência cardíaca direita. A doença impede que o sangue circule corretamente, gerando uma pressão que resulta no extravasamento de líquido para o abdômen.
Veja abaixo:
Embora Effermberg Viana seja especialista em dermatologia veterinária, ele assumiu a responsabilidade pela estabilização do quadro.
A rotina de Mazé hoje é oposta ao cenário de abandono na praia. Ela desfruta de passeios em campos de futebol, momentos de lazer no mar e convivência com outros animais.
A transformação física é evidente nas imagens divulgadas pelo tutor, que mostram uma cadela com peso controlado e disposição para brincadeiras.
O líquido que antes dificultava sua respiração e caminhada foi eliminado pelo tratamento correto.
Com o caso de Mazé lembramos a importância de diagnósticos profissionais em animais de rua. Muitas vezes, sinais físicos evidentes podem esconder patologias graves que exigem intervenção imediata.
Se Mazé não tivesse encontrado um profissional capaz de realizar os exames necessários, a insuficiência cardíaca poderia ter evoluído para um óbito rápido devido à pressão nos órgãos internos.
Atualmente, Mazé vive na sua nova casa e gosta de observar o pôr do sol ao lado de felinos recebendo o suporte que sua condição cardíaca exige.
O veterinário encerra suas atualizações destacando que a presença da cadela trouxe felicidade para o lar e que o processo de cuidado é recompensador.
A vira-lata que parecia carregar uma nova vida na barriga acabou por ganhar uma vida nova para si mesma, agora sob os cuidados de quem entende sua saúde e respeita sua história.
Causas principais de acordo com o site Gold Lab Vet.
A ascite ocorre devido a um desequilíbrio nas pressões do sistema circulatório e linfático. As origens mais comuns são:
- Problemas cardíacos: especialmente a insuficiência cardíaca congestiva direita, que gera congestão venosa e saída de líquidos para as cavidades.
- Doenças hepáticas: o comprometimento do fígado reduz a produção de proteínas (albumina), diminuindo a capacidade de manter o fluido dentro dos vasos.
- Outras causas: problemas renais, infecções (como o verme do coração), inflamações (peritonite), tumores e sangramentos internos por traumatismos.
Sintomas para observar
- Distensão abdominal: abdômen visivelmente inchado e, por vezes, duro ao toque.
- Dificuldade respiratória: causada pela pressão do líquido contra o diafragma.
- Mudanças de comportamento: letargia, perda de apetite, gemidos de dor ao se deitar e vômitos.
- Alterações físicas: ganho de peso inexplicável (pelo líquido) e distensão visível das veias jugular e hepática.
Diagnóstico e Tratamento
- Diagnóstico: O ultrassom veterinário é o exame mais eficaz, pois visualiza o líquido, identifica a causa nos órgãos internos e permite coletar amostras para análise.
- Remoção de líquido: em casos graves com falta de ar, realiza-se a abdominocentese para drenagem.
- Medicação: uso de diuréticos (como furosemida) para casos cardíacos ou antibióticos para infecções.
- Suporte: dietas com alta concentração energética, restrição de sódio e repouso.
O prognóstico depende diretamente da causa de base, sendo o diagnóstico precoce crucial para a qualidade de vida do animal.










