“Ele tremia só de ver a coleira”: Cão vivia em “modo sobrevivência”, mas gesto simples mudou tudo após o resgate
Por Beatriz Menezes em Aqueça o coração
O resgate de um animal envolve muito mais do que oferecer abrigo e comida. Para o cão Simba, retirado de uma situação de negligência em Peruíbe, no litoral de São Paulo, a liberdade começou com o respeito ao seu trauma.
O animal foi resgatado pelo Projeto Entre Patas no dia 30 de outubro de 2025 após ser encontrado em um dia frio e chuvoso na porta de um condomínio.
Embora tivesse tutores, o animal vivia em uma rotina de abandono emocional e falta de cuidados básicos, o que resultou em um medo paralisante de acessórios simples como a coleira.
O cão costumava fugir de casa e seguir a antiga dona até o trabalho, onde permanecia na rua aguardando o fim do expediente.
Após uma conversa com a responsável pelo projeto, Beatriz Sanchez, a antiga proprietária concordou em entregar o animal para adoção.
Naquele momento, o diagnóstico foi claro: Simba não era agressivo por natureza, mas estava em modo de sobrevivência.
Assim que chegou ao lar temporário, Simba demonstrou sinais de estresse profundo. O simples ato de colocar uma coleira fazia seu corpo inteiro tremer.
Em vez de forçar o treinamento ou punir as reações de medo, o projeto optou por uma abordagem baseada na paciência e no tempo do animal.
Beatriz Sanchez relatou em entrevista ao Amo Meu Pet que o processo de mudança foi gradual e focado na construção de confiança. Em apenas uma semana de convivência em um ambiente seguro, o cão apresentou avanços significativos.
Ele aprendeu a sentar, passou a fazer as necessidades no local correto e, finalmente, deu os primeiros passos usando a coleira sem entrar em pânico.

Os sinais de agressividade defensiva desapareceram quando ele entendeu que o contato humano não representava uma ameaça.
"O Simba tinha dono, tinha casa, mas na prática ele não tinha os cuidados. E ele ainda carregava no comportamento marcas que não surgem do nada. Diziam que ele era bravo, que ninguém conseguia tocar nele. Mas cachorros não nascem desse jeito, não é a personalidade deles: isso é sobrevivência", afirmou em entrevista ao Amo Meu Pet.
Saúde e preparação para a adoção
Além das questões psicológicas, Simba enfrentava problemas físicos comuns em animais que vivem sem assistência veterinária. Ele não era castrado nem vacinado e recebeu o diagnóstico de doença do carrapato.
O tratamento médico foi a primeira etapa antes que ele pudesse ser disponibilizado para uma nova família.
A visibilidade do caso por meio de vídeos no Instagram foi fundamental para o sucesso do processo. A responsável pelo projeto explicou que mostrar a rotina diária de superação ajuda a criar uma conexão com possíveis adotantes.
Segundo ela, o uso de lares temporários é uma estratégia mais eficaz do que manter os animais em canis, onde eles muitas vezes se tornam "invisíveis" para o público.
"Esse é o Simba. E toda vez que a gente colocava uma coleira no pescoço dele, o corpo inteiro tremia. Isso não era birra, isso não era drama, isso era medo. Quando ele chegou, a gente não forçou contato. Não exigimos confiança e não tentamos corrigir o comportamento dele. A gente respeitou o tempo que ele pediu. Dia após dia, com muita paciência, mostrando que nem toda mão machuca e que nem toda coleira era prisão", acrescentou a protetora.
O critério rigoroso para uma família ideal
A adoção de Simba foi formalizada no final de novembro de 2025, cerca de um mês após o resgate. Embora muitas famílias tenham demonstrado interesse, a seleção foi criteriosa.
O objetivo era garantir que o animal nunca mais voltasse a viver isolado ou em um quintal sem interação humana.
Beatriz Sanchez defende uma filosofia específica sobre o que constitui um lar adequado para um cão resgatado. Para ela, o animal deve ser um membro integrante do núcleo familiar.
Ela afirmou em entrevista que busca famílias que ofereçam uma rotina de proximidade, onde o cão durma dentro de casa e participe ativamente da vida dos moradores.
"Os pré-requisitos para a família do Simba não eram muitos, além de ser uma família amorosa que consiga trazer uma vida onde o cachorro faz parte da família, dorme junto, convive dentro de casa e passeia. Eu não quero cachorros que vivem no quintal, que vivem presos, que vivem isolados, que ficam muito tempo sozinhos. Eu evito esse tipo de família", explicou a responsável.
O novo lar de Simba preencheu todos os requisitos. A família, residente em São Paulo, demonstrou dedicação desde o primeiro contato, viajando até o litoral apenas para conhecer o cão e passar o dia com ele.
Além dos novos tutores, Simba ganhou um irmão canino e uma casa com espaço planejado para sua integração.
Confira o vídeo abaixo:
O papel do Projeto Entre Patas
O Projeto Entre Patas atua desde 2019 no resgate e reabilitação de animais em situação de vulnerabilidade. Após um período de pausa devido a questões financeiras e profissionais da fundadora, as atividades ganharam força novamente no último ano.
A motivação para o retorno integral foi o resgate de uma cadela paraplégica chamada Mel, cujos custos médicos evidenciaram a necessidade de uma rede de apoio e arrecadação de fundos.
Ao todo, o projeto já auxiliou aproximadamente 50 cachorros a encontrarem novos lares.
A protetora reforça que o sucesso da adoção depende de como o animal é Ela acredita que esses cães só precisam de segurança para revelarem sua verdadeira natureza dócil.
"Muitos deles acabam se tornando invisíveis porque as pessoas têm medo de adotar. Acham que vai ser difícil demais, que elas não vão dar conta. Mas nem sempre é tão difícil assim. Quando existe paciência, respeito e alguém disposto a entender, tudo se resolve. Aquele cachorro só precisa de tempo. Tempo para confiar, para se sentir seguro, tempo para conhecer um mundo diferente e entender que nem tudo é tão ruim", concluiu a fundadora do Entre Patas.
Atualmente, Simba vive plenamente integrado à sua nova família, servindo de testemunho de que nenhum cão é "irrecuperável" quando encontra o ambiente certo.










