"Eu pulei e bati palmas pra ela": Cadela entra sete vezes na água para tirar filhotes de toca alagada em Manaus
A toca onde ela pariu alagou depois de um mês de seca. Com uma vizinha abrindo o buraco com a pá, a mãe fez sete viagens.
Por Camila Valmorbida em Aqueça o coração
A cadela enfia a cabeça no buraco e some. Some inteira, dentro da água barrenta que tomou o vão embaixo da construção.
Segundos depois, ela reaparece. Traz um filhote atravessado na boca, encharcado e mole, e o deposita em uma área segura e seca.
Então volta e faz tudo de novo.
Uma vez, duas, três. Ela repetiu o mergulho até tirar os sete.
"Eu pulei e bati palmas para ela", contou Edineia Florgomes ao The Dodo, em relato apurado por esta reportagem. "Ela tirou todos. Quanta felicidade."
A cena aconteceu em Manaus, no Amazonas, no terreno de um vizinho, depois de uma chuva.
O esconderijo que virou armadilha
Semanas antes, a cadela tinha escolhido o lugar onde iria parir.
Ela cavou uma toca estreita embaixo de uma estrutura de tijolos e teve ali os sete filhotes. Longe da rua, longe de gente. Devia parecer o ponto mais seguro do mundo.
E foi, enquanto não choveu. Manaus vinha de um mês sem chuva.
"Eu estava com a minha filha quando começou a chover", contou Edineia. "Quando a gente voltou, a área tinha alagado."
A toca ficava em terreno baixo. A água encontrou o caminho para dentro dela.

Por que ela escolheu justamente ali?
Não foi acaso. Segundo o American Kennel Club, cadelas prestes a parir procuram uma toca: um lugar protegido do tempo, fácil de defender e silencioso. Nas últimas semanas de gestação, muitas começam a cavar, por instinto herdado dos ancestrais.
Foi exatamente o que ela fez. Achou o vão embaixo dos tijolos, abriu espaço com as próprias patas e se enfiou lá com a ninhada.
O instinto acertou quase tudo. Só não previu um terreno baixo e o fim de um mês de estiagem.
A mulher do outro lado da pá
Quem chegou e viu aquilo não era veterinária nem trabalhava em ONG.
Edineia Florgomes mora no bairro e há anos faz o que dá pelos cães abandonados da região. Dá comida, dá água e leva para vacinar quando consegue.
"Todo mundo aqui sabe que eu ajudo os animais indefesos", disse.
A cadela da toca era uma dessas. Abandonada, ela também.
Fundos demais para alcançar
O problema apareceu rápido: os filhotes estavam longe demais lá dentro. O braço de um adulto não chegava até eles.
A mãe entendeu antes de todo mundo. Rodava o buraco, entrava, saía, tentava outro ângulo.
Edineia pegou uma pá. Começou a tirar a água acumulada e a alargar a boca da toca, para abrir espaço.
Foi aí que a cadela mergulhou.
Alguém apontou o celular, e é por isso que a cena existe fora da memória de quem estava lá. O vídeo correu o Brasil em páginas de bairro e perfis de notícia antes de chegar à imprensa estrangeira.

Depois que a água baixou
Com os sete no seco, começou a outra parte, a menos cinematográfica.
Edineia deu banho em cada filhote e ajudou a família a se acomodar em um canto melhor, longe do terreno que alaga.
"Estavam todos cobertos de lama, e a mãe também estava limpando eles", contou.
Mãe e filhotes estão bem.
O detalhe que a fofura esconde
Vale dizer o que a cena bonita não conta sozinha: aqueles sete filhotes nasceram debaixo de uma construção porque a mãe deles vive na rua.
Ela seguiu o instinto certo. O que faltou foi um lugar seguro para segui-lo.
É por isso que a história não termina no aplauso. Termina em um quintal emprestado, com oito cachorros e nenhuma casa.
O plano de Edineia agora tem duas partes. Castrar a mãe, para não haver uma próxima ninhada embaixo da chuva. E encontrar família para cada um dos sete.
"Estão todos saudáveis e passando bem. Quando pararem de mamar, vou colocá-los para adoção", disse. "Só vou considerar pessoas que os adotem com amor, cuidado e carinho."
Ela tirou os sete da água sozinha, sem que ninguém pedisse e sem pensar duas vezes.
O que vem depois não depende mais dela. Os sete que a mãe salvou agora esperam alguém que os tire da rua.
Camila é técnica em vestuário e formada em design de moda, então repara no caimento de tudo, inclusive no pelo dos próprios cachorros. Mora com o Bilbo, um Yorkshire, e a Sara, uma Lulu da Pomerânia, dupla que garante que nenhuma roupa preta dela sobreviva a uma tarde inteira. Gosta de tecido, de cor e de entender como as coisas são feitas por dentro, hábito que levou para o jeito de escrever sobre pets.









