'Seus medos estão profundamente enraizados': Cachorrinha de criadouro tinha tanto medo de pessoas que tentava desaparecer na parede
Por Larissa Soares em Proteção Animal
Whispy, uma cocker spaniel de oito anos, passou grande parte da vida em um canil de reprodução.
Em 10 de junho, a cachorrinha chegou ao abrigo Many Tears Animal Rescue, no sul do País de Gales, Reino Unido. Ela estava tão assustada que tentava desaparecer no cantinho da parede.
"Não temos ideia do que ela passou na vida, mas seus medos estão profundamente enraizados", disse o abrigo no Instagram.
Segundo os voluntários, ela estava completamente apavorada com a presença humana e tentava se esconder em qualquer lugar disponível.

A equipe sabia que a recuperação exigiria paciência, tanto para a cadelinha aprender a confiar quanto para que os cuidadores descobrissem como ajudá-la.
"É incrivelmente triste de ver, e tudo o que ela realmente precisa é de alguém que lhe mostre que as pessoas podem ser gentis", escreveu o abrigo na página dedicada à cadela.
As primeiras descobertas de Whispy
Depois da chegada, a equipe transferiu Whispy para outro canil, na esperança de que a mudança ajudasse na adaptação. O processo aconteceu aos poucos, sem exigir que ela aceitasse contato humano antes de estar preparada.
Uma das primeiras mudanças aconteceu no espaço ao ar livre do abrigo. Foi no parquinho que os cuidadores perceberam Whispy abanando o rabo pela primeira vez.

A equipe passou a apresentar novos companheiros caninos à cadelinha e percebeu que ela encontrava conforto na presença de alguns deles.
Com o tempo, Whispy começou a se interessar por brinquedos e, depois de semanas comendo pouco, recuperou o apetite.
Cada avanço representava uma nova experiência para uma cachorrinha que, de acordo com o abrigo, provavelmente recebeu pouca atenção durante os oito anos anteriores.
"Ela não tem a menor noção de gentileza humana, nem das nossas intenções", disse o abrigo.
Brincar, explorar o espaço e aceitar a proximidade de alguém eram etapas que precisavam acontecer no ritmo dela.
Mas a evolução não significava que o medo havia desaparecido. Os cuidadores explicaram que Whispy ainda latia e rosnava quando alguém entrava em seu canil.
Ela também costumava se afastar e não aceitava facilmente petiscos oferecidos pelas pessoas.
A reação pode parecer contraditória para quem vê a cadelinha permitir carinho ou ser colocada no colo.
O abrigo, porém, descreveu esse comportamento com preocupação, pois ela parecia tolerar o manuseio sem demonstrar que estava confortável com a situação.
"É como se tivesse simplesmente desistido. É bem triste, na verdade", relatou.
Os amigos de quatro patas ajudam a dar segurança
Whispy encontrou uma fonte de conforto na convivência com outros cães. Ela passou a dividir o espaço com dois companheiros, um mestiço de shih-tzu e outro de poodle, com quem se deu bem.

A equipe também percebeu que ela tende a se sentir mais à vontade perto de cães menores, tranquilos e que respeitam seu espaço. Já os animais maiores ou mais agitados parecem menos adequados para ela.
Essa preferência será importante na escolha da família definitiva. Segundo o abrigo, Whispy precisará viver em uma casa com pelo menos outro cão gentil, calmo e confiante, que possa ajudá-la a conhecer o ambiente e a se sentir mais segura.
Os voluntários procuram uma família tranquila, sem crianças e com experiência no cuidado de cães muito medrosos, principalmente aqueles que passaram anos em instalações de reprodução.
Como Whispy nunca viveu em uma casa, ela também precisará aprender tarefas cotidianas, como fazer as necessidades no local adequado e se adaptar a uma rotina doméstica.
Passeios ainda não são uma prioridade. Antes de conhecer ruas movimentadas ou enfrentar situações novas, ela precisará se sentir confortável no ambiente onde vive.
Explorar um jardim com calma pode ser um primeiro passo, desde que esteja segura e acompanhada de maneira adequada.
A equipe compartilhou a história de Whispy no Instagram em 9 de agosto.
A publicação alcançou 8,2 milhões de visualizações e recebeu 384 mil curtidas.
A adoção exige paciência e expectativas realistas
Em uma atualização publicada em 15 de setembro, no site do abrigo, um voluntário contou que Whispy ainda tinha muita dificuldade para confiar nas pessoas.
Ela continuava latindo quando alguém entrava no canil, fugia da aproximação e não aceitava petiscos diretamente da mão.
"Sendo realista, por que ela confiaria em mim? Depois de passar oito anos inteiros sem conhecer o que é carinho?", refletiu o voluntário.
A equipe espera que a cadelinha avance, mas reconhece que talvez ela nunca se torne tão sociável quanto algumas pessoas esperam de um cão de estimação.
Por isso, a adoção não deve ser encarada como uma promessa de transformação. A família precisará aceitar Whispy como ela é, valorizar pequenos progressos e compreender que haverá dias mais difíceis.

O objetivo não é obrigá-la a gostar de todos, mas oferecer condições para que ela se sinta segura.
A boa notícia é que Whispy agora consta como reservada para uma família, aguardando uma visita domiciliar e um encontro prévio, etapas previstas pelo abrigo antes de a adoção ser finalizada.
Ainda não é possível afirmar que ela esteja em seu lar definitivo, mas a reserva abre a possibilidade de uma nova fase para a cadelinha.
"Essa pobre e doce cachorrinha não merece viver com medo e pânico. Ela merece um lugar seguro para chamar de seu, onde saiba que ninguém vai machucá-la", disse o abrigo.
Como ajudar um cão traumatizado a confiar nas pessoas
O medo intenso pode aparecer de diferentes formas. Um cão pode se esconder, tremer, evitar olhar para alguém, recuar, latir ou rosnar quando uma pessoa se aproxima.
Esses sinais não devem ser interpretados automaticamente como agressividade. Em muitos casos, o cão está tentando aumentar a distância de algo que considera ameaçador.
A ASPCA Pro, divisão da Sociedade Americana para a Prevenção da Crueldade contra Animais voltada a profissionais, recomenda permitir que cães medrosos se aproximem por iniciativa própria.
Sentar por perto sem pressioná-los, evitar movimentos bruscos e oferecer petiscos à distância são algumas das estratégias que podem ajudar a criar associações positivas. Veja algumas dicas:
- Preparar um refúgio seguro: o cão deve ter um espaço tranquilo para se afastar quando estiver assustado, sem ser seguido ou retirado à força do esconderijo.
- Respeitar os limites: não é indicado obrigar o cão a aceitar carinho, colo ou aproximações de desconhecidos. Se ele recuar, é importante dar espaço.
- Manter uma rotina previsível: horários consistentes para alimentação, descanso e outras atividades podem ajudar o cão a entender melhor o ambiente.
- Recompensar pequenas aproximações: petiscos e elogios podem ajudar a criar experiências positivas, desde que sejam oferecidos sem forçar o cão a chegar perto.
- Buscar orientação profissional: um veterinário e um profissional de comportamento que trabalhe com métodos baseados em reforço positivo, que recompensam os comportamentos desejados em vez de punir, podem ajudar a desenvolver um plano adequado para cada caso.
No caso de Whispy, o abrigo reforça que o processo não terá atalhos. A futura família precisará compreender que o avanço pode ser lento e que a cadelinha talvez continue precisando de distância e tranquilidade em determinadas situações.
"Ela precisa de um lugar onde finalmente se sinta segura, e eu realmente espero que isso aconteça em breve", desejou o abrigo.
Larissa é jornalista e escreve para o Amo Meu Pet desde 2023. Mora no Rio Grande do Sul, tem hobbies intermináveis e acha que todos os animais são fofos e abraçáveis. Ela se formou em Jornalismo pela Universidade de Passo Fundo e é “mãe” de duas gatas.










