"Não vamos deixar você aqui!": Amigos encontram jumentinha órfã ao lado da mãe já sem vida e resolvem mudar seu destino

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em Proteção Animal

No feriado de 15 de novembro, um grupo de amigos avistou uma cena de cortar o coração em uma rodovia de Floriano, no Piauí.

À beira da PI-140, Pereira, Lucas Wariss e Dessim Almeida se depararam com uma jumentinha sozinha, parada ao lado do corpo da mãe.

Tudo indicava que a fêmea havia sido atropelada e permanecia ali havia pelo menos um ou dois dias.

O filhote, no entanto, não havia saído do lugar. Perdida, faminta e confusa, a jumentinha parecia não saber para onde ir.

“É de cortar o coração da gente”, disse Pereira, enquanto registrava o momento em vídeo.

Os carros passavam, o sol castigava a estrada, mas a jumentinha continuava ali. Para os amigos, seguir viagem como se nada estivesse acontecendo simplesmente não era uma opção.

“Foi uma decisão imediata. Não teve nem o que pensar”, contou Dessim. “Descemos do carro, resgatamos ela.”

Com a ajuda de uma corda, eles colocaram a jumentinha no carro e seguiram caminho, ainda sem saber exatamente o que fariam a seguir.

“Foi amor à primeira vista”

Inicialmente, a ideia do grupo era encontrar o possível dono do animal. Eles circularam pela região, perguntaram a moradores próximos, mas ninguém soube informar a quem a jumentinha pertencia.

Diante disso, Dessim tomou uma decisão que mudaria o destino do animal. Ele a levou para casa.

“Foi amor à primeira vista”, contou.

A escolha foi aceita pela família, que se encantou com a nova integrante. A jumentinha passou a receber cuidados, alimentação adequada e, principalmente, segurança.

Segundo ele, a jumentinha está sendo bem cuidada e está se alimentando bem.

“Vocês podem ficar tranquilos que nós vamos cuidar dela com muito amor e carinho”, garantiu.

A jumentinha ganhou o nome de Samarica, inspirado em conversas que o grupo teve durante a viagem.

Na estrada, os amigos falavam sobre músicas de Luiz Gonzaga e sobre como o jumento é um símbolo do sertão nordestino, presente na cultura, na história e na memória afetiva da região.

A escolha do nome não poderia ser mais simbólica.

Comoção nas redes sociais

A história rapidamente tocou os internautas, que deixaram centenas de comentários elogiando a atitude do grupo.

“Gente, que ato nobre!!! Que incrível vocês são!!! Que Deus abençoe imensamente sua família”, escreveu uma seguidora.
“Que pecado… ela do lado da mãe, com fome, sede, medo… a gente tem muito o que aprender com os animais”, comentou outra.
“O tipo de pessoa que eu desejo ser mais abençoada do que já é! Muita alegria, saúde e prosperidade!”, disse mais um comentário.

Jumentos: um patrimônio em risco no Brasil

Segundo dados da ONG internacional The Donkey Sanctuary, a população de jumentos no Brasil sofreu um colapso nas últimas décadas.

Estima-se que houve uma redução de 94% do rebanho desde os anos 1990.

Para se ter ideia, o país tinha cerca de 1,3 milhão de jumentos em 1996. Em 2025, restariam aproximadamente 78 mil animais, concentrados principalmente no Nordeste.

Entre 2018 e 2024, cerca de 248 mil jumentos foram abatidos apenas na Bahia, único estado brasileiro com frigoríficos autorizados pelo Serviço de Inspeção Federal (SIF) para esse tipo de atividade.

O que está por trás do desaparecimento

Segundo a BBC, a principal causa dessa redução drástica é a demanda internacional pelo ejiao, um produto da Medicina Tradicional Chinesa feito a partir do colágeno extraído da pele do jumento.

O elixir é associado à vitalidade e à saúde e movimenta uma indústria bilionária.

Segundo a consultoria Newsijie, o mercado de ejiao ultrapassa 58 bilhões de yuans, o equivalente a cerca de R$ 42 bilhões.

Para suprir essa demanda, estima-se que 5,9 milhões de jumentos sejam abatidos por ano no mundo, de acordo com relatório da The Donkey Sanctuary.

O problema não afeta apenas o Brasil. Na África, continente de origem dos jumentos, o comércio de peles foi proibido em 2024, após uma decisão unânime de 55 países da União Africana, que decretaram uma moratória de 15 anos para o abate.

Ciência brasileira busca uma alternativa

Diante da urgência, pesquisadores brasileiros têm se mobilizado para evitar o desaparecimento da espécie Equus asinus.

Cientistas de universidades federais, liderados pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), desenvolvem uma tecnologia para produzir colágeno de jumento em laboratório, sem necessidade de abate.

A pesquisa utiliza uma técnica chamada fermentação de precisão, ou agricultura celular, que permite produzir colágeno idêntico ao do jumento a partir de microrganismos geneticamente programados.

O projeto conta com apoio do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e da Fundação Araucária.

Mas os pesquisadores alertam que ainda são necessários mais investimentos e medidas legislativas para conter o abate enquanto a tecnologia não chega ao mercado.

Um símbolo que precisa ser preservado

Para a The Donkey Sanctuary, os jumentos são um patrimônio nacional. Adaptados ao semiárido, eles sempre tiveram papel fundamental na agricultura familiar, no transporte de água e na vida cotidiana do Nordeste.

Hoje, três caminhos sustentáveis são defendidos para o futuro da espécie no Brasil:

  • viverem livres;
  • continuarem atuando na agricultura familiar;
  • serem reconhecidos e valorizados como animais de companhia.

E, nesse último, Samarica está se saído bem.

Larissa é jornalista e escreve para o Amo Meu Pet desde 2023. Mora no Rio Grande do Sul, tem hobbies intermináveis e acha que todos os animais são fofos e abraçáveis. Ela se formou em Jornalismo pela Universidade de Passo Fundo e é “mãe” de duas gatas.