"Nunca mais você vai ser descartada, nem esquecida": Yorkshire idosa é resgatada e vive seus últimos dias cercada de amor
Por Ana Carolina Câmara em Cães
Kira é uma cachorrinha da raça Yorkshire que, por boa parte da vida, foi usada como matriz para procriação, sem receber o cuidado, o carinho e o respeito que todo animal merece.
Sua vida era marcada pela exploração e pela ausência de afeto, vivendo apenas para gerar filhotes, sem conhecer o verdadeiro significado de um lar.
Até que o destino mudou seu caminho e a levou para os braços da protetora de animais Lujan Quintal, de Macaé, no Rio de Janeiro. Foi ali que Kira finalmente encontrou acolhimento, paciência e amor verdadeiro.
Ao lado de Lujan, essa lindinha descobriu o prazer de receber colo, dormir tranquila e ser cuidada com dedicação.
Kira viveu seus últimos anos com dignidade, cercada de afeto e segurança, mostrando que nunca é tarde para recomeçar e que todo resgate carrega a chance de transformar uma vida.
O resgate da Kira
Em entrevista ao Amo Meu Pet, Lujan contou que Kira foi encontrada abandonada em uma casa, sobrevivendo apenas com um pote de ração mofada e uma bacia de água suja.
Era tudo o que restava para uma vida que, por muito tempo, havia sido marcada apenas pela exploração.
Segundo Lujan, Kira havia sido usada como matriz para procriação durante anos. Quando já não “servia” mais, a antiga tutora se mudou e a deixou para trás, à própria sorte, sem qualquer cuidado ou responsabilidade.
A situação só veio à tona quando o proprietário do imóvel pediu uma faxina geral para colocar a casa novamente para alugar. Foi nesse momento que a pequena foi encontrada, debilitada, fraca e em condições alarmantes.

Lujan soube do caso por meio de Angélica, amiga e proprietária do imóvel, que chegou à sua casa desesperada, pedindo ajuda para salvar a cachorrinha.
"O inquilino, ao faxinar a casa para que fosse realugada, encontrou a cadelinha e a levou para casa porque, afinal, 'era de raça'", contou Lujan.
Naquele dia, Lujan estava atrasada, pois tinha horário marcado com a veterinária para levar Eros, seu cachorro que lutava contra a leucemia.
Angélica aproveitou a oportunidade e, antes mesmo de falar sobre Kira, disse a Lujan que iria até a casa buscar uma cadelinha abandonada, que estava com um de seus inquilinos e precisava urgentemente de atendimento veterinário.
“Pouco tempo depois, Angélica voltou com um molambinho no colo — uma coisinha que, num passado bem distante, havia sido uma Yorkshire”, relembrou Lujan.
No caminho até a clínica veterinária, Angélica contou a Lujan a dura história da cachorrinha, que já estava idosa, adoentada e extremamente fragilizada.
O relato era tão impactante que, segundo Lujan, “era de causar espanto que ainda estivesse viva”. Cada detalhe reforçava o quanto Kira havia resistido por pura força de sobrevivência.
Ao chegar para avaliação, o diagnóstico confirmou a gravidade do quadro. Kira estava com a doença do carrapato, apresentava a pálpebra do olhinho direito necrosada, além de uma fratura já consolidada na patinha dianteira e outra na mandíbula.

A partir daquele momento, começava uma nova fase: não de cura completa, mas de acolhimento, alívio da dor e, acima de tudo, de dignidade. Afinal, mesmo depois de tudo o que enfrentou, Kira finalmente teria a chance de ser cuidada como sempre mereceu.
"O plano era simples e doloroso: cuidar para que tivesse um tempo de vida com dignidade — morrer limpa e de barriguinha cheia", contou Lujan.
Nova vida
O inquilino que havia acolhido Kira no primeiro momento não tinha condições de cuidar dela de forma adequada, mesmo com Lujan se dispondo a arcar com todas as despesas da idosinha.
A situação exigia tempo, atenção constante, medicação rigorosa e acompanhamento veterinário — algo que ele, infelizmente, não conseguia oferecer.
Por outro lado, Lujan também vivia um limite real. Em sua casa, ela já cuidava de 13 cães, além de outros três que estavam temporariamente hospedados em um hotelzinho. O espaço físico, o tempo e a energia já estavam completamente comprometidos. Ainda assim, desistir de Kira nunca foi uma opção.
Diante do impasse, Lujan recorreu a quem sempre esteve ao seu lado nas causas animais: Júnior Frazão, um amigo que prontamente se dispôs a ajudar.
Juntos, divulgaram a história de Kira nas redes sociais, na esperança de encontrar um lar temporário onde a cachorrinha pudesse se recuperar da doença do carrapato e ganhar forças para, futuramente, passar por uma possível enucleação — procedimento indicado para remover o olhinho comprometido.
A mobilização começou a surtir efeito de uma forma inesperada. Sensibilizado com a ideia da enucleação, Júnior Frazão decidiu agir.
“Foi então que o Júnior, incomodado com a possibilidade de retirada do olhinho, doou para Kira uma avaliação oftalmológica”, relembrou Lujan.
A partir daí, a história ganhou um novo rumo. A Dra. Lídia, veterinária oftalmologista, assumiu o caso com extrema sensibilidade.

Após a realização de diversos exames, ficou claro que ainda havia uma chance real de tentar salvar o olhinho de Kira. Tocada pela situação, a profissional propôs algo que mudaria tudo.
Segundo Lujan, “compadecida com a situação, a Dra. Lídia me entregou medicamentos, pedindo 15 dias para tentar salvar o olhinho da Kira”.
Diante daquele gesto, não havia como recusar.
“Como dizer não quando um anjo, disfarçado de veterinária oftalmologista, doa todo o tratamento — consultas, medicamentos e até possíveis cirurgias — para uma criaturinha tão sofrida?”
Foi nesse momento, entre esperança e emoção, que Lujan tomou uma decisão definitiva. Independentemente de como fosse o desfecho clínico, Kira não seria mais descartada, nem trocada, nem esquecida. Ela seria, finalmente, adotada de vez.
A partir dali, Kira deixava de ser apenas mais um resgate difícil e passava a ser família de Lujan, com direito ao que nunca teve: amor e cuidado até o fim.
Kira passou a receber tanto amor e carinho que sua expressão foi se transformando.
O olhar triste deu lugar a uma feição mais serena, sinal de que, pela primeira vez, ela se sentia segura. Lujan conta que a mudança era tão visível que, sempre que a irmã ia visitá-la, comentava surpresa ao vê-la:
“Essa não é a cadelinha que veio para morrer limpa e de barriga cheia? Vai morrer não!”
Kira viveu sob os cuidados de Lujan por cinco anos, cercada de amor, respeito e dedicação, até virar estrelinha no dia 20 de março de 2023. Foram anos que compensaram tudo aquilo que ela havia sido privada ao longo da vida.

Como Lujan fez questão de esclarecer, o olhinho de Kira nunca foi retirado.
"O atendimento da Dra. Lídia, duas intervenções cirúrgicas, colírios lubrificantes, simpatia com água da chuva de Santa Luzia e uma pomada manipulada no Rio — doada por Júnior Frazão — garantiram que ela partisse com os dois olhinhos", contou.
Em um desabafo sincero, Lujan reconheceu que, apesar de todo o cuidado, o corpo cansado acabou cedendo.
“Pois é… A idade avançada e a vidinha miserável que teve por muito tempo acabaram vencendo.”
Nos momentos finais, não faltaram palavras, nem amor. Lujan conta que conversou com Kira, agradeceu pela chance de terem vivido um convívio tão bonito e verdadeiro.
“Avisei a Francisco de Assis para preparar um lugarzinho com ar-condicionado — porque minha pequena adorava!”
Ao refletir sobre toda a trajetória, Lujan resumiu o que significa dedicar a vida à causa animal:
“Ser protetor de animais é agir na urgência e decidir na incerteza.”
E Kira foi a prova viva — e eterna — de que cada resgate importa, mesmo quando o tempo parece curto demais.
Redatora e apresentadora do Canal Amo Meu Pet.
Com formação em Design de Produtos e especialização em Design de Interiores pela Universidade de Passo Fundo, a Ana encontrou sua verdadeira paixão ao unir criatividade, comunicação e o amor pelos animais.
Apaixonada por contar histórias que tocam o coração, ela estudou Escrita Criativa com o escritor Samer Agi e participa do programa JournalismAI Discovery, organizado pela Escola de Economia e Ciências Políticas de Londres e a Iniciativa de Notícias do Google, buscando se aprofundar no universo digital.
Hoje, dedica-se a produção de conteúdos que informam, emocionam, conscientizam e arrancam sorrisos.







