“Era praticamente um portal para Nárnia”: Protetora encontra passagem misteriosa na vegetação e vê filhotes surgirem um a um
Por Larissa Soares em Proteção Animal
Luana e Claudio, conhecidos pelo projeto de proteção animal As Joias da Lu, encontraram uma situação curiosa em uma estrada de terra em Itajaí, Santa Catarina.
Após resgatar um filhote, em 28 de setembro, o casal voltou ao local para procurar outros cães e descobriu uma "passagem" na vegetação, de onde surgiram mais cachorrinhos.
A cena fez Lu brincar que havia encontrado um "portal para Nárnia".
"O que você está fazendo aqui?"
O primeiro encontro aconteceu quando Lu e Claudio passavam pela estrada e viram um filhote sentado na vegetação.
Batizado de Romeu, ele estava sozinho, molhado e tremendo. Ao se aproximar, Lu chamou o filhote com carinho.
"Oi, 'quiança', o que você está fazendo aqui?", perguntou.
Romeu foi até ela abanando o rabinho com tanta força que chegava a rebolar. A cena arrancou risadas de Lu, que descreveu o cãozinho como "todo rebolativo".
Apesar da graça daquele primeiro contato, o estado do filhote preocupava. Enquanto Claudio pegou Romeu no colo, Lu foi olhar ao redor para verificar se havia outros cães abandonados por perto.
Ela chamou, procurou pela vegetação, mas ninguém apareceu.
O casal levou Romeu embora, mas ficou com a sensação de que ainda havia alguma coisa naquele lugar.
Na publicação sobre o resgate, Lu contou que os dois não conseguiram encontrar outros filhotes na primeira tentativa, embora desconfiassem que Romeu não estivesse sozinho.
"Fomos embora, mas nosso sexto sentido nos dizia que tinha mais! Estávamos certos, voltamos e tinha mesmo!", relatou.
O 'portal para Nárnia' escondia uma família inteira
Quando Lu e Claudio retornaram ao local, a busca ganhou novos capítulos. Em meio à vegetação, eles encontraram a mãe dos filhotes.
No começo, era possível ver apenas a cabecinha da cadela aparecendo entre as folhas.

Lu se aproximou e perguntou onde estavam os filhos dela. Assim que a mamãe se movimentou, surgiu um rostinho pequenino logo atrás.
A protetora se surpreendeu ao perceber que havia mais um filhote escondido ali.
"Olha só!", reagiu ela, enquanto o primeiro cãozinho saía da passagem entre as plantas.
Logo depois, outro apareceu. E, como se estivessem esperando a vez de entrar em cena, mais um filhote surgiu abanando o rabinho.
"Vem todo mundo, vem!", chamou Lu, rindo da quantidade de cãezinhos que começava a aparecer.
A sequência fez o casal brincar que aquele lugar parecia uma passagem para outro mundo.
"É a passagem para um mundo paralelo, hahaha", disse ela na legenda.
A mamãe recebeu o nome de Melissa, e os filhotes foram identificados como Michelle, Romeu, Joaquim e Miguel. Mas eles não foram os únicos cãezinhos encontrados.
Após o resgate da família, o casal descobriu que existiam mais seis. Eles não estavam na passagem secreta, mas sim no "forninho". Melissa está grávida.
A família começa a encontrar lares
Enquanto a mamãe continua sendo acompanhada de perto para ter seus bebês em segurança, quase todos os filhotes resgatados já encontraram famílias adotivas.
Michelle, Romeu e Joaquim já estão felizes em seus novos lares. Miguel, no entanto, ainda espera por uma oportunidade.
A permanência de Miguel chamou a atenção da protetora para uma questão que ela observa no trabalho com cães disponíveis para adoção.
Segundo Lu, os cães de pelagem preta costumam enfrentar mais dificuldades para encontrar um lar.
O projeto já encaminhou dezenas de cães pretinhos para famílias, e a própria história de Romeu mostra que a cor não impede que um cãozinho conquiste uma casa. Ainda assim, Lu acredita que é importante conversar sobre o assunto para que outros cães, como Miguel, também tenham a chance de ser escolhidos.
Os cães pretos podem esperar mais por uma família?
A dificuldade relatada por Lu é conhecida entre protetores como "síndrome do cão preto". O termo descreve a percepção de que cães com pelagem escura são preteridos nas adoções e, por isso, podem passar mais tempo em abrigos do que cães de outras cores.
Há algumas hipóteses para esse fenômeno. Entre elas estão os preconceitos e superstições em relação à cor preta, como associar o gato preto ao azar ou o cão preto a um animal menos amigável.
A dificuldade de fotografar animais de pelagem escura em ambientes pouco iluminados e a impressão de que suas expressões faciais são menos visíveis em fotos também podem atrapalhar as divulgações.
Essas hipóteses são discutidas por organizações de proteção animal, como a PAWS Chicago, abrigo e ONG de proteção animal dos Estados Unidos, em um artigo sobre as taxas de adoção de cães e gatos pretos.
O que dizem os estudos?
Estudos que analisaram registros de abrigos nos Estados Unidos não encontraram uma associação consistente entre a pelagem preta e uma espera maior pela adoção.
Uma pesquisa publicada na revista Animal Welfare avaliou quatro anos de registros de dois abrigos no noroeste do país.
Os pesquisadores não identificaram diferenças estatisticamente significativas no tempo médio de espera para adoção de cães pretos em comparação com cães de outras cores.
A idade e a raça, por outro lado, estiveram associadas aos resultados de forma mais consistente.
Outra pesquisa, publicada no Journal of Applied Animal Welfare Science, analisou registros de dois abrigos sem eutanásia no estado de Nova York e também não encontrou relação entre a cor da pelagem e o tempo de permanência dos cães.
Os autores ressaltaram, porém, que os resultados de alguns abrigos não necessariamente se aplicam a todos os outros.
No entanto, a ausência de uma associação estatística nesses estudos não prova que nenhum cão preto enfrente barreiras na adoção, nem permite concluir que o fenômeno não exista em determinados locais.
Os resultados podem variar conforme o perfil dos animais, as características dos abrigos e as preferências de quem procura um companheiro.
Por isso, a experiência de organizações continua sendo relevante para levantar a questão e incentivar a adoção responsável, sem transformar a cor da pelagem em uma sentença sobre o destino de um cãozinho.
Miguel ainda espera por uma família
Enquanto Michelle, Romeu e Joaquim já foram adotados, Miguel continua disponível para adoção pelo projeto As Joias da Lu. A protetora usou a história dos irmãos para chamar a atenção para os cães pretos que ainda aguardam uma oportunidade.
"Eles merecem ter as mesmas chances que qualquer outro cãozinho!", escreveu Lu.
Quem quiser conhecer melhor Miguel ou saber sobre outros cães que precisam de um lar pode entrar em contato com a equipe pelo Instagram @asjoiasdalu ou escrever para asjoiasdalu@asjoiasdalu.com.br.
Agora, Miguel aguarda sua vez de deixar o abrigo e ganhar um cantinho para chamar de casa.
Larissa é jornalista e escreve para o Amo Meu Pet desde 2023. Mora no Rio Grande do Sul, tem hobbies intermináveis e acha que todos os animais são fofos e abraçáveis. Ela se formou em Jornalismo pela Universidade de Passo Fundo e é “mãe” de duas gatas.







